A cena acaba de acontecer: um carro branco pára no meio da rua, bem em frente à nossa casa, e as duas portas se abrem. Gritaria. A mulher, no volante, desce chorando. O homem, vinte e poucos anos, de boné, sem camisa, bêbado e com uma latinha de cerveja na mão, a ameaça. Ela se recusa a entrar no carro: "Você vai me bater!" Acendo a luz da varanda, vou até o portão e peço pra fazerem silêncio. Ele aponta o dedo pra mim e diz: "Não te mete! Vem aqui pra fora, vem!"
Acho graça do convite e numa fração de segundo pondero as opções. Não dá pra deixar a mulher apanhar. Conversa amistosa ou chá com torradas estão fora de questão. Ele é mais forte, mas é do meu tamanho e tá mamado, não é difícil de botar no chão. Também podia soltar a cachorra, que tá doida pra avançar no imbecil, mas aí a coisa pode sair do controle. Talvez o cara esteja armado. Ele sabe onde eu moro, eu não sei onde ele mora. Sou da paz, tenho fi pra criar e uma preguiiça danada de me incomodar com bobalhão... Como demora uma fração de segundo.
Faço meia volta e entro em casa, contente de não ter cedido a meu lado Hulk. Mas nem chego a discar pra polícia. Ela entra no carro e dá a partida. Ele, talvez percebendo a merda que fez, também entra e seguem o caminho. Posso só especular o antes e o depois. Imagino o início da noite deles: convite pra jantar fora, comemoram o dia internacional da mulher, rosa vermelha, cena de ciúme. Se a moça for esperta e corajosa, vai lhe dar um pé na bunda rapidinho. Se não, vai apanhar - talvez mais de uma vez - e deixar por isso mesmo, o que seria triste. Êta mundo doido...
O silêncio volta a reinar no bairro das corujas.
domingo, 9 de março de 2008
Plantão da madrugada
sábado, 8 de março de 2008
Partidas: tio Jacó
Morreu hoje às 10h em Russas, Ceará, meu tio Jacó Severiano da Silva, 82 anos, irmão mais novo do meu pai. Vá em paz, tio.
sexta-feira, 7 de março de 2008
Um momento especial em Pasárgada

Pousada Sítio Pasárgada, em Anitápolis, serra catarinense, 18 de agosto de 2007. Sopinha de legumes, vinho tinto e risadas. Meu pai, 82 anos de piadismo, diz: "Gosto muito de Santa Catarina; aqui as mulheres dão sopa!" Ali perto, o rio da Prata borbulha. Cheiro bom de comida caseira no fogão a lenha. Estou sentado ao lado dos dois homens com quem mais aprendi na vida. Na sala inteira, calor de gente amada. O tempo flui leve como uma pena de passarinho.
Da esquerda pra direita: Augusto, eu, Camillo, Laura, Bruno e Maria Rosa. Foto de Leonardo Camillo.
quarta-feira, 5 de março de 2008
A Deusa de 1967
Já comentei sobre essa música aqui: Walk, Don't Run, composta em 1954 pelo guitarrista de jazz Johnny Smith e depois gravada pela banda instrumental The Ventures. Mas não tinha mostrado o uso dado a ela nesta cena antológica de cinema. Ao som de uma jukebox, num bar no deserto australiano, um japonês ensina uma moça cega a dançar. O filme é A Deusa de 1967 (Clara Law, 2000).
terça-feira, 4 de março de 2008
Dá tempo?
Belíssimo texto da Lígia Fascioni sobre o tempo que nos resta. Tou em sintonia total com essas idéias.
Como fazer efeitos de cores em fotos p&b

Aprendi ontem no Lifehacker como destacar detalhes coloridos em fotos preto e branco. Eu não imaginava que era tão fácil:
- Abra uma foto colorida (usei esta) com um bom editor de imagens (tou usando o Gimp, gratuito e excelente).
- Crie uma nova camada que seja cópia da foto original.
- Elimine as cores da camada que estiver por cima, deixando-a p&b (sépia etc., conforme o efeito que desejar).
- Com a ferramenta borracha, trabalhe na imagem p&b, apagando os detalhes que queira destacar. Vão surgir as cores da camada de baixo. O ideal é ampliar pra ter mais precisão nas bordas e detalhes. Se errar, use a ferramente anti-borracha ou equivalente, pra preto-e-branquear de novo.
- Mescle as duas camadas numa única.
- E pronto: é só salvar a foto com um novo nome de arquivo.
Cena de viagem: banheiro de hotel
Banheiro de hotel em algum lugar do Centro-Oeste do Brasil. Escovas de Miguel, Laura, Dauro e Bruno.
segunda-feira, 3 de março de 2008
A incrível viagem de Shackleton
Lendo A incrível viagem de Shackleton, de Alfred Lansing (Sextante, 2004). O livro, escrito em 1959, conta uma história real ocorrida em 1914, quando um aventureiro britânico partiu com sua equipe para a Antártica. Sua a meta era atravessar pela primeira vez o continente gelado, usando trenós puxados por cães. Mas o navio ficou preso, foi esmagado pela pressão do gelo e os homens tiveram que passar por uma grande provação pra sobreviver.
O mar da Ilha
Sábado molhei os pés no mar pela primeira vez em 2008. E ontem repeti a dose de corpo inteiro. A água do Campeche tava bem fria, mas deliciosa. Pequenos prazeres da vida: tomar cerveja com os amigos na areia da praia e depois fazer xixi no calção olhando o horizonte, com as ondas do mar grosso lavando a alma e tudo mais.
Footprints In Your Heart
Enviado do Japão pelo amigo australiano Aidan Doyle.
Many people will walk in and out of your life,
But only true friends will leave footprints in your heart.
To handle yourself, use your head;
To handle others, use your heart.
Anger is only one letter short of danger.
If someone betrays you once, it is his fault;
If he betrays you twice, it is your fault.
Great minds discuss ideas,
Average minds discuss events,
Small minds discuss people.
He who loses money, loses much;
He who loses a friend, loses much more;
He who loses faith, loses all.
Beautiful young people are accidents of nature,
But beautiful old people are works of art.
Learn from the mistakes of others.
You can't live long enough to make them all yourself.
Friends, you and me.
You brought another friend,
And then there were three.
We started our group,
Our circle of friends,
And like that circle -
There is no beginning or end.
Yesterday is history.
Tomorrow is mystery.
Today is a gift.
That's why it's called the present.
- Eleanor Roosevelt
sábado, 1 de março de 2008
A fantástica história do índio do buraco
A edição de 13 de janeiro da Washington Post Magazine traz uma grande reportagem do jornalista Monte Reel sobre os índios isolados no Brasil. Em especial, conta sobre o último remanescente de uma etnia desconhecida: um índio nômade que vive numa área de selva rodeada de fazendas, no sul de Rondônia. Não é novidade, sabe-se disso há mais de dez anos, mas a cada vez que leio, me encanto com a síntese que esse caso representa de tantas outras histórias envolvendo os primeiros donos da terra Brasil. Seus ingredientes incluem desmatamento, violência, grilagem de terra, corrupção, pressões políticas. Há também aventura, trabalho duro e paciente, reviravoltas, investigação, ciência e tecnologia - imagens de satélite, por exemplo, foram algumas das evidências utilizadas para identificar clareiras feitas pelo índio.
O índio solitário constrói cabanas improvisadas de palha e cava um buraco dentro delas pra se abrigar. Está em permanente fuga e evita o convívio humano, talvez por um forte motivo: há evidências de que seus parentes foram mortos por jagunços. Arredio e hostil, já atacou a flechadas os que chegaram muito perto. Entre seus pertences foi achado um pequeno arco que provavelmente pertenceu a uma criança.
Há dez anos, em janeiro de 1998, tive o privilégio de ouvir o início da saga do "índio do buraco" narrada por um dos principais personagens, o sertanista Marcelo dos Santos. Laura e eu passamos uma tarde conversando com ele na sua casa em Vilhena, Rondônia. Apaixonado pelo modo de vida dos indígenas, conviveu com os Nhambiquara, Mamaindê e Negarotê durante a expansão da fronteira agrícola para o Norte na década de 70. Na época em que o encontramos, Marcelo era chefe do Departamento de Índios Isolados da Funai no estado. Seu cotidiano era enfrentar dias de caminhada na selva, na tentativa de minimizar os danos do eventual contato dos nativos isolados com madeireiros e fazendeiros.
Marcelo foi um dos reponsáveis por contactar pela primeira vez os Kanoê, com somente cinco sobreviventes, e os Akuntsu, com seis. No mato ou nos gabinetes, não tinha papas na língua pra cumprir a missão. Era inevitável que entrasse em rota de colisão com corruptos do serviço público, fazendeiros gananciosos e políticos escroques. Mas voltando àquela tarde em Vilhena. Ele nos contou que fazendeiros locais tinham todo o interesse em fazer o "índio do buraco" desaparecer para evitar que a área fosse protegida como terra indígena. Por isso era imporrante documentar a existência do homem, respeitando o seu direito de permanecer isolado.
As únicas imagens disponíveis do "índio do buraco" foram obtidas depois de um susto: Marcelo e um amigo francês, o cinegrafista Vincent Carelli, se aproximaram de uma cabana onde havia sinal de vida e ficaram algumas horas tentando contato. De repente, Vincent se aproximou demais e o homem lá de dentro disparou uma flecha que passou bem perto do cinegrafista. Decidiram se afastar, mas antes amarraram a câmera ligada a um galho de árvore. Alguns minutos depois, aparecia o índio: nu, cerca de trinta anos, moreno, de bigode, segurando um arco. Desconfiado, saiu da cabana com cautela e desapareceu no mato. Com base nas imagens de vídeo e em indícios antropológicos - entre eles o de que houve um massacre de outros índios que também tinham o costume de fazer buracos no chão -, Marcelo conseguiu que a Justiça Federal concedesse liminar interditando uma área de floresta.
Seu empenho lhe rendeu inimigos poderosos. Foi considerado persona non-grata pela Assembléia Legislativa de Rondônia - para a maioria dos parlamentares, a atuação do sertanista atrapalhava o progresso. As pressões políticas o fizeram deixar o estado e sair da Funai. Mas veja as voltas que o mundo dá: em abril de 1999 ele foi condecorado pelo governo federal com a Ordem de Rio Branco, uma das mais importantes honrarias do país. Atualmente de volta à Funai, Marcelo é responsável pela Coordenação Geral de Índios Isolados - existem 46 informações sobre a possível existência desses índios, a maioria na Amazônia Legal. Graças às evidências que sua equipe recolheu em uma década, no ano passado o governo brasileiro finalmente declarou uma área de floresta mais de 20 mil acres como território protegido para o índio solitário.
Em janeiro de 2007, conta a matéria da Washington Post Magazine, uma expedição liderada pelo sertanista Altair Algayer, parceiro de longa data de Marcelo, se embrenhou na mata e encontrou sinais de que o índio continua vivo: restos de coleta de mel e uma cabana recém-construída. Desfecho feliz, por enquanto, para um símbolo de resistência.
Por Dauro Veras às 03:33 |
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