Santa Catarina foi objeto de reportagem do jornalista Erik Hagen, da ong Norwatch - organização que monitora as atividades das corporações norueguesas pelo mundo -, exibida ontem na tevê nacional da Noruega. A Bunge (americana) e Yara (norueguesa), com apoio do governo do estado de SC, planejam construir uma mina de fosfato que pode detonar a Mata Atlântica em Anitápolis, a 100km de Floripa. O projeto ameaça animais em risco de extinção, mananciais e a segurança da população da região. É tão temerário que foi congelado em liminar concedida pela Justiça Federal e confirmada pelo Tribunal Regional Federal da 4a. Região. As empresas recorreram.
Uma versão escrita da reportagem está no site da Norwatch. O bicho vai pegar no país escandinavo, pois a Yara, por ser parcialmente estatal, é de grande interesse público. E o governo norueguês fica de saia justa, pois no ano passado anunciou a doação de um bilhão de dólares até 2015 para um fundo de conservação da Amazônia. Imagino - talvez esteja sendo otimista em excesso? - que a pressão dos contribuintes vai terminar levando a Yara a rever seu projeto predatório. Quanto à Bunge, até agora, repercussão zero nos Estados Unidos. Alguém aí chama o Michael Moore?
p.s.: Dica pra ler reportagem em norueguês, em tradução automática imperfeita, mas aceitável: abrir o http://translate.google.com e colar no formulário o endereço do site. O resultado está aqui. Dá pra fazer o mesmo com as duas outras partes do texto (1 e 2).
sábado, 28 de novembro de 2009
Fosfateira de SC na mídia norueguesa
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Devastação S/A é finalista do Prêmio Esso
A reportagem Quem se beneficia com a devastação da Amazônia, que fiz junto com os colegas Marques Casara, André Campos, Carlos Juliano Barros, Leonardo Sakamoto, Paola Bello e Sérgio Vignes, é finalista do Prêmio Esso de Jornalismo 2009! Para apontar os 38 trabalhos finalistas, as comissões examinaram 520 reportagens, séries de reportagens ou artigos. Estamos entre os três selecionados na categoria Informação Científica, Tecnológica e Ecológica. A reportagem investigativa, publicada na revista do Instituto Observatório Social, mostrou como funciona o esquema de "esquentamento" de madeira extraída ilegalmente da floresta amazônica. Também revelou os nomes de várias empresas brasileiras e estrangeiras que ganham com o negócio da madeira ilegal. O Esso é o mais importante e tradicional prêmio de reconhecimento do mérito jornalístico no Brasil, com 54 anos de existência. Os resultados vão ser anunciados pela comissão julgadora no dia 8 de dezembro no Rio de Janeiro.
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Em 2003, a reportagem Mineração predatória na Amazônia Brasileira, de autoria de Marques Casara, que editei para a revista do Observatório Social, ganhou o Esso na mesma categoria em que concorremos agora.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
Existe vida fora da grande mídia
Pela primeira vez um site de notícias ganha o conceituado Prêmio Esso de Jornalismo. O Congresso em Foco foi o ganhador deste ano na categoria Contribuição à Imprensa. Pela primeira vez, também, os jurados decidiram com base em reportagens - neste caso, a série sobre a farra das passagens, de autoria do amigo Lúcio Lambranho (ex-estudante de jornalismo na UFSC), junto com Edson Sardinha e Eduardo Militão. O reconhecimento ao Congresso em Foco é mais uma evidência de que há um espaço importante de jornalismo investigativo a ser ocupado fora da área de influência da grande imprensa. Parabéns ao editor Eumano Silva e a toda a equipe.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Castelo dos Sonhos: entrevista com Tatiana Cardeal
Há poucas semanas contei sobre um prêmio que minha amiga Tatiana Cardeal, fotógrafa documentarista, foi receber na China. Pois mal retornou ao Brasil, ela já recebeu outro: o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, em parceria com Marques Casara, com a reportagem Castelo dos Sonhos [pdf], sobre exploração sexual de crianças e adolescentes ao longo da BR-163. Nesta entrevista, Tatiana conta como foram os bastidores dessa apuração.
DVeras em Rede - Como foi o desafio de fazer uma reportagem fotográfica sobre um tema que envolve tantos aspectos delicados do ponto de vista psicológico, legal e de segurança?
Tatiana Cardeal - Foi difícil, mas desafiador, e eu gosto muito dos desafios que me trazem um sentido. Não sou exatamente uma fotojornalista, meu trabalho é mais documental e bem mais lento, então, em no início achei que poderia não funcionar bem, mas acabei me surpreendendo bastante com minhas próprias reações. Fotografar escondida ou em risco não é a minha rotina, nem algo que eu tenha prazer em fazer. Houve momentos em que tive muito medo e outros em que surpreendemente me vi coordenando a situação com certa excitação para obter a melhor momento/ângulo de uma foto. Havia uma série de cuidados sobre o que fotografar e quando fotografar, não dava pra chegar clicando. Também havia o desafio de encontrar imagens fortes e/ou sensíveis que contassem a história e que fossem publicáveis, já que não se pode expor as imagens das vítimas da exploração sexual.
O que mais a impressionou? Houve momentos em que você hesitou em clicar?
Tatiana - Muitas coisas me impressionaram. Como cena, uma das mais impressionantes foi quando chegamos e passamos pela "avenida principal" de Castelo. Um grupo de cerca de sete meninas, muito novas (acho que entre 12 e 15 anos), semivestidas, sentadas na mesa de bilhar da varanda do boteco/bordel. A ausência do poder público alí impressiona, assim como as péssimas condições da estrada de terra (foram 6 horas para cobrir os 200 km), que separa Castelo da "civilização", uma área erma onde praticamente não se encontra nada. Como referência, a região é próxima de onde caiu o Boeing da Gol em 2006, e que foi uma enorme dificuldade de mobilidade para o próprio exército. Também me impressionou muito a cena de uma garota franzina de 12 anos amamentando seu bebê; e em especial a "normalidade cultural" com que o sexo com menores é tratado, ao mesmo tempo em que provoca vergonha e receio nas famílias da vítimas.
O momento em que hesitei não foi pela imagem da foto em si, mas pela pressão psicológica em que estava. A gente já sabia da fama violenta da cidade... um conselheiro tutelar de outra cidade entrou em pânico quando o Marques decidiu que precisávamos ir lá. Mas já em Castelo, depois de entrevistar o jornalista que estava ameaçado de morte, e ele mostrar uma série bizarra de fotos que fez dos assassinatos da região (que não aguentei ficar vendo, porque não eram somente corpos assassinados, mas mortes decorrentes de violência bizarra e brutal, com técnicas de tortura requintadas e sádicas, que expunham os corpos posteriormente como "mensagem" para a população local), e eu ainda precisava fazer duas últimas fotos, em público, na avenida principal e na delegacia. Eu estava tão chocada com o depoimento e a brutalidade das imagens do jornalista, que o Marques praticamente me empurrou pra fora do carro para fotografar.
Pode contar um pouco sobre o lado técnico de fazer uma cobertura fotográfica na umidade amazônica? Como você lida com o dilema entre a necessidade de carregar equipamento pesado e a de ser discreta?
Tatiana - Bom, a Amazônia é gigantesca, e oferece condições climáticas variadas. No caso dessa região no norte do Mato Grosso, não fomos na época das chuvas, então eu tinha mais preocupação com o poeirão vermelho da estrada de terra do que com a umidade, vivia protegendo a câmera e limpando. Já no Amazonas, em São Gabriel da Cachoeira encontramos temperaturas altíssimas com extrema umidade, a ponto de a cola do espelho da minha câmera derreter (e da filmadora parar de funcionar subitamente algumas vezes). Consegui colar novamente o espelho com uma versão enigmática de SuperBonder, a TreeBonder, única alternativa disponível na cidade indígena... por sorte colou e resolveu. Outra coisa que ajudou é ter uma mochila tropicalizada, que veda 100% contra chuva, e até protege na queda do equipamento na água (a mochila fica boiando no caso de uma voadeira virar...).
Normalmente não carrego muito equipamento. De mais pesado são duas cameras, três lentes médias e um flash. Se não ía muito longe, só uma camêra. Mas nada que não caiba em uma mochila média e que eu não possa levar.
Admiro a maneira como você reorientou a carreira bem-sucedida de diretora de arte para recomeçar - e obter reconhecimento internacional - na fotografia de temas sociais. O que moveu você nessa mudança e como ela se deu?
Tatiana - Obrigada, Dauro, mas saiba que essa mudança de carreira não foi nada muito planejado. Acho que tive uma boa dose de sorte, pois ao sair da Editora Abril eu já sabia que queria continuar na área social e não queria mais fazer revista puramente comercial. Estava fazendo uma pós graduação em Mídias Interativas, algo meio novo e experimental na época, e que me deixou bastante antenada com as possibilidades da internet. Fui publicando imagens de temas que me interessavam e pesquisas visuais que eu fazia como estudo e hobby. Aí fui recebendo um grande feedback que me encorajou a continuar produzindo mais e que aos poucos tornou-se trabalho. Ainda naquele período, algumas redes que eu frequentava e publicava só falavam em inglês, e acredito que foi aí que o trabalho ganhou alguma projeção fora daqui.
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Leia também a entrevista com Marques Casara.
Por Dauro Veras às 16:08 |
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Castelo dos Sonhos: entrevista com Marques Casara
Meus amigos Marques Casara e Tatiana Cardeal ganharam menção honrosa na trigésima-primeira edição do Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, um dos mais conceituados do Brasil. A reportagem deles, Castelo dos Sonhos [pdf], publicada na revista da ong Childhood Brasil, desvenda uma rede criminosa de exploração sexual de crianças de adolescentes na BR 163. Nos últimos anos, Marques tem faturado vários prêmios "correndo por fora" da grande mídia. Suas reportagens investigativas bancadas por organizações do terceiro setor são um grande incentivo para quem acredita que é possível fazer jornalismo independente com qualidade. Fiz esta entrevista com ele por e-mail.
DVeras - Sobre o que é a reportagem Castelo dos Sonhos e o que ela traz de novo?
Marques Casara - A pauta foi proposta para a revista da organização não governamental Childhood Brasil, que desenvolve projetos ligados ao enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes. O objetivo seria percorrer a BR 163 e identificar locais de exploração sexual de crianças e adolescentes nas estradas, em postos de combustível e prostíbulos. O projeto foi aceito e financiado pela ONG.
Ao chegar na região Norte do Mato Grosso, a reportagem tomou outra proporção, pois identificou uma rede criminosa organizada de aliciamento de crianças e adolescentes nas cidades de Guarantã do Norte, Matupá e Peixoto Azevedo, todas localizadas próximas à divisa com o Pará. Os aliciadores levavam as adolescentes para a cidade de Castelo de Sonhos, um distrito de Altamira localizado a 1.200 km da sede do município. O lugar é de difícil acesso, o que facilita o trabalho das redes de exploração. Tem apenas 3 policiais militares e um delegado que anda a pé por falta de viatura. Uma região sem lei e onde a exploração sexual de crianças e adolescentes acontece a céu aberto. O único jornalista da cidade passou 10 dias escondido no forro de uma casa para não ser morto e hoje recebe proteção especial do governo. A reportagem serviu para alertar as autoridades e mobilizar o governo do estado a tomar providências em relação ao problema das adolescentes. Uma reportagem como essa sempre muda o cenário, alerta as autoridades e outros jornalistas.
Conte um pouco sobre como foi a apuração. Durou quanto tempo? Quais foram as principais dificuldades e surpresas?
Casara - O assunto veio à tona em conversa com uma fonte na região. A apuração durou duas semanas. Foi trabalhoso localizar as famílias das adolescentes e mais trabalhoso ainda convencer mães e avós a contar o problema. Além do medo de represálias, sempre há um certo constrangimento em admitir que uma ou mais filhas foram aliciadas por redes que lucram com a exploração sexual. As famílias moram em cidades na divisa do Mato Grosso com o Pará. Chegar a Castelo de Sonhos também foi muito trabalhoso. São 200 km de uma estrada praticamente intransponível a partir da divisa. Cerca de 40 quilômetros após a partida, estourou o amortecedor dianteiro direito. A opção era desistir ou seguir em frente. Fomos em frente, arriscamos.
Castelo de Sonhos é um lugar sem Lei, sem Poder Público, sem força policial. O lugar é muito violento. Chegamos disfarçados e passamos uma noite. Na manhã seguinte, tivemos a sorte de encontrar uma amortecedor da mesma marca e modelo do carro. Só então revelamos nossa condição de jornalistas. A partir dai, foi uma corrida contra o tempo. Em três horas visitamos os locais onde ocorrem a exploração e fizemos as entrevistas e as fotos. Precisávamos sair da cidade antes de qualquer reação. No caminho de volta fomos seguidos por cerca de 80 quilômetros por uma caminhonete ocupada por três homens. A perseguição parou quando entramos em um canteiro de obras de uma barragem que está sendo erguida na região da Serra do Navio. Paramos em frente a um restaurante. A caminhonete nos seguiu e parou a menos de 30 metros. Após alguns minutos, deu meia volta e retornou a Castelo de Sonhos. Sem sair do carro, comemos duas latas de atum com pão e guaraná. Pegamos a estrada e chegamos a Guarantã do Norte sem maiores problemas. Se não tivessemos encontrado o amortecedor certo, teríamos um pouco mais de trabalho.
Como é a logística de fazer uma reportagem investigativa na Amazônia, lidando com um tema delicado e potencialmente arriscado tanto para vítimas quanto para repórteres?
Casara - A logística é imitada pelos recursos. A apuração é limitada pelos riscos. Estávamos com um carro de passeio quando deveríamos estar em um 4x4. Isso aumenta os riscos de quebrar o carro. Também dificulta uma saída rápida em caso de necessidade. A reportagem também é limitada pelas distâncias e pelas condições das estradas, o que torna tudo mais caro e trabalhoso. O assunto é complexo, as famílias não gostam de falar sobre isso. A corrupção também dificulta a apuração e aumenta os riscos, pois autoridades ganham dinheiro acobertando criminosos.
É preciso jogar com todos esses fatores. É preciso também antever os riscos, estar sempre um passo à frente. É necessário jogar com o fator surpresa, com a rapidez e com toda a experiência acumulada. Os principais erros acontecem por causa da afobação e do medo. Os três segredos da reportagem de risco são os seguintes: 1) Mantenha a calma; 2) Mantenha a calma; 3) Mantenha a calma.
Você acredita que a reportagem de vocês pode transformar a realidade dessas adolescentes? Já transformou desde que foi publicada?
Casara - Reportagens como essa sempre mudam o cenário. Servem de alerta, inspiram novas matérias. Uma violência como essa, quando vem a tona, atrapalha a vida dos criminosos e estimula as autoridades. Algumas autoridades são estimuladas a aumentar o valor da propina, outras, honestas, são estimuladas a resolver o problema.
Este é o seu segundo prêmio Herzog de Jornalismo e Direitos Humanos. O que isso representa para você como jornalista que atua com entidades do terceiro setor, sem o apoio da grande mídia?
Casara - Não me interesso mais pela grande mídia. Desde o ano 2001 atuo exclusivamente para organizações que não estão vinculadas ao jornalismo industrial. Posso fazer um jornalismo mais libertário e revolucionário. Não estou limitado pelos interesses comerciais das empresas de comunicação. Hoje, o que dá lucro para essas empresas é o jornalismo de entretenimento, mesmo quando disfarçado de "investigativo". Desde que sai desse circuito ganhei um Prêmio Esso e dois Herzog. É um bom referencial. Estou construíndo um caminho próprio, sem holofotes mas com muita realização pessoal. Uma dica pra quem tá começando na profissão: todo jornalismo é investigativo. Se não é investigativo, não é jornalismo.
Por Dauro Veras às 15:21 |
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domingo, 18 de outubro de 2009
Manual do Repórter de Polícia
Está disponível pra download no site Comunique-se a edição atualizada do Manual do Repórter de Polícia (arquivo pdf). O autor é Marco Zanfra, daqui de Floripa.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
No escuro
Maíra Spanghero, ex-colega do jornalismo da UFSC que tá morando em Londres, criou um blog que promete: dança, reportagem afetiva, literatura barata. O primeiro texto que li já me fisgou. É sobre a inesquecível experiência sensorial que ela e um amigo tiveram de comer num restaurante totalmente escuro, o Dans Le Noir, servidos por um garçom cego.
domingo, 20 de setembro de 2009
Mina vira alvo de protestos em SC
Matéria de alta relevância no Estadão de hoje. Um paraíso de mata atlântica e nascentes está ameaçado pela estupidez corporativa. O Fernando e a Regina, citados no texto, foram nossos anfitriões no sítio Pasárgada, em Anitápolis.
Mina vira alvo de protestos em SC
Empreendimento para explorar fosfato obteve aval de órgão de licenciamento, mas moradores são contra atividade
Há sete anos, Fernando Monteiro decidiu ir embora para sua Pasárgada, e assim batizou o sítio que escolheu, no meio da mata atlântica de Santa Catarina. Hoje, ele está triste, triste de não ter jeito, com a história da construção de uma mineradora perto de seu quintal. Mas, ao contrário do que imaginava o poeta Manuel Bandeira, Monteiro não é amigo do rei nem da Indústria de Fosfatos Catarinense (IFC), dona do projeto Anitápolis. A IFC quer explorar a maior jazida ainda intacta no País em uma área de 300 hectares, cercada de florestas, rios e pequenas comunidades. Monteiro e outros tantos lutam para barrar a obra.
Eduardo Nunomura
Duas multinacionais, a Bunge e a Yara Brasil Fertilizantes, formaram a IFC e compraram 1,8 mil hectares na pacata cidade de Anitápolis. Há décadas sabe-se que naquele chão há o minério vital para o agronegócio. É o fósforo, identificado pela letra química P. Com o nitrogênio (N) e o potássio (K), forma o fertilizante NPK. O Brasil importa a maior parte do fósforo, porque é mais barato. Explorar jazidas como a de Anitápolis reduziria a dependência externa.
Monteiro é um paulistano que se refugiou na montanha. Casou-se com Regina Capistrano, mãe de Miguel, de 11 anos, e com ela teve duas filhas, as pequenas Mariana e Ana Clara. Eles compraram 5,5 hectares cortados por dois rios e nove nascentes d"água. Plantaram uma horta e construíram três cabanas para receber hóspedes. A pousada Sítio Pasárgada faz parte de um programa de inspiração francesa, a Acolhida na Colônia, onde turistas experimentam a vida no campo sem televisão, telefone ou internet. "Falo de rios limpos, rãs e matas intactas. As multinacionais dizem que vão preservar, mas a lógica delas é de quem só pensa em produzir", diz ele. (...)
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Aviso de pauta: China
Aviso de pauta de Marques Casara:
Dia 13 tô indo para a China. Minha mulher, a fotógrafa Tatiana Cardeal, vai receber um prêmio de fotografia em Guangzhou, a uns 600 Km de Pequim. Depois, seguimos em direção ao Sul até a fronteira com o Laos, fazendo reportagens sobre comunidades tradicionais.
Aceitamos pedidos de matéria de texto, foto e vídeo.
p.s. vou levar minha camisa do Inter pra ir comemorando ao longo do caminho. Os chineses adoram vermelho e detestam azul.
terça-feira, 21 de julho de 2009
Nicarágua, 30 anos
O amigo Lúcio Lambranho, repórter da publicação digital Congresso em Foco, recentemente esteve em Honduras cobrindo o golpe de Estado e está agora na vizinha Nicarágua. De lá, tem enviado uma série de reportagens sobres os 30 anos da revolução sandinista. Recebi um tocante e-mail dele e reproduzo uns trechos:
...Os dias aqui tem sido emociantes demais. ...Os hondurenhos, tomara que eu esteja errado, já estão a bordo de uma guerra civil de consequências totalmente imprevisíveis.Parafraseando Bukowski sobre os escritos de John Fante, finalmente um repórter que não tem medo da emoção.
Já na Nicarágua, que também está nessa lista dos três mais pobres junto com a vizinha Honduras e o Haiti, as emoções têm sido muito à flor da pele. Já chorei várias vezes nesses dias. De tristeza por não poder fazer algo mais efetivo por eles e com suas histórias de sofrimento e muita coragem. Não é fácil chutar a bunda, como eles fizeram, ao mesmo tempo de um ditador genocida e dos Estados Unidos.
Mas espero que no Brasil, minhas matérias possam conscientizar pelo menos algumas pessoas sobre a dureza em que vivem os mais pobres na América Central. Pelo menos é essa minha missão e estou trabalhando duro pra cumpri-la.
E chorei de alegria também. É como a realização de um sonho estar esses dez dias aqui e nessa data tão marcante. Era algo que buscava desde a faculdade e no dia que ganhei o Veias Abertas da América Latina da minha querida mãe há mais de 20 anos.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Webleituras
A World of Risk for a New Brand of Journalist
"As the journalists Laura Ling and Euna Lee complete their third month of detainment in North Korea, it remains rather astonishing that they were there in the first place to report for a fledgling cable channel. But their path there may explain in part why they remain in custody".
Brian Stelter, NY Times, sobre os perigos do jornalismo freelance.
Every news organisation should have a data store
"Is this a natural extension of the blogging culture of linking to your sources? I think it is. And the more journalists get used to publishing their work on the likes of Google Spreadsheets, the better journalism we will get".
Paul Bradshaw, no Online Journalism Blog, sobre o uso de bancos de dados para contar histórias.
Banco Mundial rescinde contrato com a Bertin e exige dinheiro de volta: Amigos da Terra pede que o BNDES faça o mesmo
"Amigos da Terra - Amazônia Brasileira anuncia que, após três anos de acompanhamento, conseguiu confirmar, na noite de ontem [12.6], um importante objetivo de campanha: fazer com que a International Finance Corporation (IFC), braço para setor privado do Banco Mundial, voltasse atrás em sua decisão de financiar a expansão na Amazônia do frigorífico Bertin..."
Essa decisão deve ter muitas repercussões.
Exclusif : nous avons retrouvé le tome 4 de "Millénium"
"Cette fois, c'est certain : il existe bien un tome 4 de « Millénium ». Trois Suédois, fans du polar posthume de Stieg Larsson, sont parvenus à s'introduire dans l'ordinateur de l'auteur, alors entre les mains de sa compagne, Eva Gabrielsson".
Reportagem de Rue 89 sobre a invasão, por hackers, do computador da viúva de Larsson e o vazamento do quarto volume que dá sequência à trilogia noir.
quinta-feira, 11 de junho de 2009
Devastação S/A
Quem se beneficia com a destruição da Amazônia?
A 15ª edição de Observatório Social Em Revista é resultado de nove meses de investigação jornalística que mostraram como funcionam redes de negócios implicadas em crimes ambientais e trabalhistas na Amazônia. As informações colhidas permitiram fechar os elos de uma corrente perversa, que começa no interior da floresta e termina na casa de consumidores em todos os continentes. Organizada em duas partes, a revista mostra as fraudes e os esquemas de desrespeito ao meio ambiente e aos trabalhadores dentro e fora do Brasil. Na primeira parte, é revelado um esquema milionário de exportação de madeira retirada ilegalmente da Floresta Amazônica, envolvendo as maiores empresas mundiais dos setores de pisos e móveis. A segunda parte mostra como funciona o comércio interno da devastação florestal, detalhando as irregularidades relacionadas aos mercados de madeira, soja e pecuária no Brasil.
Por André Campos, Carlos Juliano Barros, Dauro Veras, Leonardo Sakamoto, Marques Casara, Paola Bello e Sérgio Vignes.
Para fazer o download da versão completa da revista, clique aqui. [pdf, 1,67 MB]
Para fazer o download da revista em resolução mais alta, ideal para impressões destinadas a jornais murais e demais exposições públicas, clique aqui. [pdf, 4,84 MB]
Para baixar partes específicas, clique no link correspondente, no sumário a seguir:
Editorial
Quem se beneficia com a destruição da Amazônia
Devastação S/A
Entrevista: Valmir Ortega
Conexão São Paulo-Amazônia
Quem ganha com a devastação
São Paulo, consumidor voraz
Pecuária é setor problemático
Mais boi que gente
Soja avança sobre Amazônia Legal
Povos indígenas ameaçados
Financiamento: investimento de risco
Notas institucionais
Para solicitar a revista impressa, clique aqui.
terça-feira, 2 de junho de 2009
Devastação S/A
Estou em "semiférias" de uma semana no Ceará, onde vim pro casamento da minha irmã. Antes de viajar, deixei uns posts pré-agendados pra distrair vocês e pretendia sumir do blog por uns dias, mas volto em edição extraordinária com este press-release:
Observatório Social revela esquema de exportação de madeira do desmatamento
Reportagem publicada pela revista do Observatório Social mostra como funciona a exportação de madeira oriunda de áreas desmatadas. Funcionários públicos corruptos e grandes empresas de exportação estão envolvidas no esquema. Gigantes do setor, sediadas nos Estados Unidos, Ásia e Europa, compram a madeira da devastação.
Gigantes internacionais dos ramos de beneficiamento e de comercialização de madeira estão ligados a um esquema milionário que transforma madeira retirada ilegalmente da Floresta Amazônica em produtos legalizados. Entre os envolvidos estão órgãos ambientais e grandes exportadoras. A madeira é vendida para as maiores cadeias de vendas de pisos e móveis nos Estados Unidos, Europa e Ásia, muitas delas detentoras de selos de certificação de madeira. A reportagem completa está na próxima edição da revista do Observatório Social, que será lançada no próximo dia 10, em São Paulo. A revista vai revelar quais são as empresas envolvidas, tanto no Brasil quanto no exterior.
Segundo a revista, de 70% de toda a madeira comercializada no estado do Pará, maior vendedor de madeira amazônica no Brasil, tem origem ilegal. Essa madeira passa por um processo de “esquentamento” que funciona dentro de órgãos do governo. Autoridades do Ministério Público Federal e do Ibama confirmam o esquema e apontam o envolvimento da Secretaria Estadual do Meio Ambiente.
Ao lado de empresas fantasmas, de empresas que devem milhões em multas ambientais e de empresários que respondem por falsidade ideológica e escravidão de trabalhadores, grupos internacionais se beneficiam com o esquema. Entre os maiores, a dinamarquesa DLH Nordisk, o grupo europeu Kingfisher, das marcas Castorama e Brico Dépôt, e a norte-americana Lumber Liquidators, do milionário Tom Sullivan, patrocinador de programas como Dream Home, do canal Home and Garden Television, e Extreme Makeover: Home Edition, do canal People+Arts.
Serviço
Lançamento de Observatório Social em Revista, edição 15
Data: 10 de junho de 2009
Horário: 10h
Local: Auditório da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf). Rua Libero Badaró, 158. Centro. São Paulo
Mais informações
Paola Bello
Editora-assistente
paola [arroba] os.org.br
(11) 8559 6758
Marques Casara
Editor
marques [arroba] os.org.br
(11) 9353 2311
sábado, 2 de maio de 2009
Wired conta de onde veio o ancestral da gripe suína
Reportagem publicada ontem pela Wired Science aponta que o "ancestral" do vírus da gripe H1N1 surgiu em 1998 em fazendas industriais nos Estados Unidos.
Swine Flu Ancestor Born on U.S. Factory FarmsWired Science - News for Your Neurons
Scientists have traced the genetic lineage of the new H1N1 swine flu to a strain that emerged in 1998 in U.S. factory farms, where it spread and mutated at an alarming rate. Experts warned then that a pocket of the virus would someday evolve to infect humans, perhaps setting off a global pandemic.
The new findings challenge recent protests by pork industry leaders and U.S., Mexican and United Nations agriculture officials that industrial farms shouldn’t be implicated in the new swine flu, which has killed up to 176 people and on Thursday was declared an imminent pandemic by the World Health Organization. (...)
Por Dauro Veras às 22:56 |
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quinta-feira, 30 de abril de 2009
A gripe suína e o poder da indústria pecuária
Pra quem tem interesse em saber o que está por trás da origem da gripe suína, recomendo a leitura de um artigo de Mike Davis, professor no departamento de História da Universidade da Califórnia e especialista nas relações entre urbanismo e meio ambiente. O texto foi publicado dia 27 no Guardian e sua tradução em português, por Katarina Peixoto, está no Carta Maior. Davis alerta para os riscos da industrialização empresarial da pecuária:
Em 1965, havia nos EUA 53 milhões de porcos espalhados entre mais de um milhão de granjas. Hoje, 65 milhões de porcos concentram-se em 65 mil instalações. Isso significou passar das antiquadas pocilgas a gigantescos infernos fecais nos quais, entre esterco e sob um calor sufocante, prontos a intercambiar agentes patógenos à velocidade de um raio, amontoam-se dezenas de milhares de animais com sistemas imunológicos debilitados. Cientistas advertem sobre o perigo das granjas industriais: a contínua circulação de vírus nestes ambientes aumenta as oportunidades de aparição de novos vírus mais eficientes na transmissão entre humanos. (...)Coincidentemente, esta semana o videodocumentário Espírito de Porco, que Chico Faganello e eu dirigimos (com recursos do Prêmio Cinemateca Catarinense), foi finalizado e entregue à Fundação Catarinense de Cultura. Entre as questões levantadas pelo filme está o confinamento na criação industrial, que tem reflexos no bem-estar dos suínos e, por tabela, dos humanos, na água, no solo e no ar ("é o cheiro do dinheiro", brincam alguns moradores do Oeste do estado, naqueles dias quentes em que a merda de porco é captada pelo olfato a quilômetros de distância).
Santa Catarina tem uma das maiores concentrações de suínos do mundo - o rebanho supera as 50 milhões de cabeças, ou dez porcos para cada habitante. Por motivos econômicos, governo e indústria têm se esforçado em disseminar a ideia de que o problema não tem nada a ver conosco. Mas os alertas vindos de todo o planeta indicam que seria sensato pensar grande e com visão de longo prazo, isto é, fazer uma reflexão profunda sobre a validade do atual modelo de produção de carne. Nosso documentário não tem respostas prontas, quer mesmo é estimular o debate. Em breve vamos exibi-lo ao público, primeiro no oeste de Santa Catarina e depois em Florianópolis e festivais.
terça-feira, 28 de abril de 2009
A farra continua
"Câmara paga passagens para ex-deputados". Tá no Congresso em Foco, site noticioso online que primeiro levantou a treta e foi repercutido por toda a grande mídia. A série é de autoria do meu amigo Lúcio Lambranho (ex-aluno do curso de jornalismo da UFSC, onde nos conhecemos) junto com Edson Sardinha e Eduardo Militão. Na lista de ex-deputados que utilizaram a mamata, nomes como o presidente nacional do PPS, Roberto Freire, o ex-ministro dos Esportes Agnelo Queiroz (PT-DF), o atual vice-governador de Mato Grosso do Sul, Murilo Zauith (DEM), e o ex-deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP).
domingo, 12 de abril de 2009
Trabalhadores da cana (3)
Terceira parte da série de reportagens e entrevistas sobre os impactos socioambientais da atividade sucroalcooleira no Brasil.
Convenções e acordos coletivos
Os cortadores de cana estão entre os trabalhadores rurais que mais conseguem firmar convenções e acordos coletivos, mas nem sempre isso garante o cumprimento dos seus direitos.Por Dauro Veras
Existem no Brasil cinco milhões de trabalhadores assalariados rurais, estima a Confederação dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). Eles são o contingente mais explorado e marginalizado entre as pessoas que trabalham na agropecuária. Desse total, em torno de 2 milhões têm postos de trabalho fixo, em que o contrato é por tempo indeterminado. Um milhão e meio de pessoas trabalham pelo menos uma vez por ano entre quatro e oito meses, no período da safra – contrato de safra. Outro 1,5 milhão trabalha em culturas de curta duração, como feijão, milho, tomate, hortifrutigranjeiros e café. Desses, a grande maioria não tem carteira de trabalho assinada e a duração de sua atividade é de no máximo 15 dias. Muitos trabalham em três ou quatro estados ao longo do ano, mudando-se conforme a disponibilidade de vagas em diferentes lavouras.
Nos tratos culturais e na colheita da cana-de-açúcar são empregados em torno de um milhão de assalariados no Brasil, segundo fontes empresariais . É difícil precisar esse número, porque parte dos trabalhadores é empregada de forma clandestina e temporária. Também há variações conforme fatores climáticos, mudanças de remuneração nas demais lavouras e outros fatores. Levantamento de 11 federações vinculadas à Contag nos 11 principais estados produtores apurou cerca de 779 mil trabalhadores empregados nas safras e entressafras.
Paradoxalmente, apesar das frequentes violações de direitos a que estão sujeitos, os cortadores de cana estão entre os poucos segmentos de trabalhadores rurais que conseguem conquistar acordos coletivos. (...)
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Parte 1
Parte 2
Cortador de cana em Guariba, SP. Foto: Dauro Veras
sábado, 11 de abril de 2009
Trabalhadores da cana (2)
Segunda parte da série de reportagens e entrevistas sobre os impactos socioambientais da atividade sucroalcooleira no Brasil.
São Paulo:
modernização e dilapidação
A evolução da tecnologia sucroalcooleira tem provocado efeitos contraditórios; se por um lado traz divisas ao país, por outro tem contribuído para a precarização do trabalho modernização e dilapidação
Por Dauro Veras
A modernização da cultura canavieira no Brasil atinge diversas fases do processo produtivo. Desde a década de 1970, pesquisas na área da biotecnologia têm levado ao aumento nos teores de sacarose, a um melhor controle de pragas e ao prolongamento da vida útil da planta. Grande variedade de produtos químicos também passou a ser utilizada no controle de pragas, doenças e ervas daninhas. Várias empresas aplicam esses produtos utilizando aviões. (1)
Essa modernização tem provocado efeitos contraditórios, segundo os pesquisadores do setor. Ao mesmo tempo em que gera divisas para o país, também tem pressionado os salários, enfraquecido o movimento sindical e contribuído para o agravamento das condições de trabalho. As mudanças também têm causado efeitos negativos nas condições de saúde – em casos extremos, levando trabalhadores à incapacidade e à morte.
Outros efeitos incluem exclusões de gênero e idade: mulheres e idosos estão sendo eliminados da força de trabalho nos canaviais. O tempo de vida útil de um cortador de cana hoje é de 12 anos – inferior ao do período da escravidão, segundo alguns estudiosos do tema. (2) A pesquisadora Maria Aparecida de Moraes Silva, professora livre docente da Unesp (Universidade Estadual Paulista), afirma que o fenômeno está diretamente ligado à busca de maior produtividade pelas empresas do setor.
Para conseguir ganhar o suficiente, os trabalhadores se obrigam a colher até 15 toneladas por dia e andam até nove quilômetros na jornada. O esforço físico extenuante e repetitivo, a alimentação deficiente e as condições precárias de saúde e segurança no trabalho levam os trabalhadores a ter sérios problemas de coluna, tendinite, câimbras nas pernas, braços e pés. Há denúncias, no estado de São Paulo, de pelo menos duas dezenas de casos extremos, em que ocorreram mortes ligadas ao esforço físico. (...)
Continua
Parte 1
Foto: Trabalhador da cana no interior de São Paulo. Dauro Veras
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Trabalhadores da cana (1)
Começo a publicar hoje uma série de reportagens e entrevistas que fiz a partir de 2004 sobre os trabalhadores da cana-de-açúcar, como parte de um estudo coletivo sobre os impactos socioambientais da atividade sucroalcooleira no Brasil. Esse estudo, realizado por iniciativa da Oxfam e do Instituto Observatório Social, teve circulação limitada. Em função da relevância crescente do tema, decidi compartilhar na internet a parte que me coube, ressalvando que fiz as últimas atualizações em meados de 2007. As opiniões expressas não são necessariamente endossadas por essas duas entidades, às quais sou muito grato pelo apoio.
Os migrantes da cana
Estudos da socióloga Maria Aparecida Moraes Silva, da Unesp, com trabalhadores nos canaviais paulistas, mostram que as indústrias sucroalcooleiras do estado não têm responsabilidade social Por Dauro Veras
“Zé Pretinho amava a cana. Ele tinha uns 25 a 27 anos. Era um monstro, o melhor cortador da região. Ele chegava a cortar mais de 30 toneladas [por dia] e, no fim, dava um beijo na última cana antes de passar o facão. Um dia ele tava trabalhando e teve um ataque. Vi ele morrer abraçado num feixe de cana. Aquele ali era apaixonado."
(Cortador de cana baiano em uma pensão de Guariba, SP) *
“Um dia, no canavial, tive uma câimbra tão forte que caí. Meus braços ficaram retorcidos de dor. Vomitei e não veio nada, o estômago estava vazio. Fui levado ao hospital pra tomar soro. Depois da terceira dose melhorei e fui pra casa. No dia seguinte ainda estava muito fraco e não fui trabalhar. Mais um dia e eu já estava de volta no canavial.”
(Walter, maranhense, corta cana em Guariba, SP. Vive com a mulher e duas filhas em uma casa alugada de 15 metros quadrados, sem água encanada). *
Eles vêm do Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais, do norte do Paraná e de vários estados do Nordeste. São homens entre 16 e 25 anos, com pouca ou nenhuma escolaridade e sem qualificação profissional. Todos os anos, na safra da cana, milhares – mais de 70 mil na safra 2006, segundo estimativas empresariais – se deslocam de seus municípios de origem para trabalhar por cerca de oito meses no estado de São Paulo. Alguns se deslocam com suas famílias, mas boa parte viaja sozinha, deixando mulher e filhos nos municípios de origem.
Deste do início de 2004 a Pastoral do Migrante da diocese de Jaboticabal (SP) vem realizando trabalhos de apoio aos migrantes temporários em São Paulo. Membros da entidade estiveram em 72 alojamentos encravados em canaviais e mais de 4 mil pensões nas cidades dormitórios. Foram visitados mais de 62 mil migrantes.
Em decorrência da terceirização da mão-de-obra, 64% dos trabalhadores rurais migrantes se encontram em péssimas condições de vida e trabalho, denuncia entidade da Igreja Católica. Mais de 56% dos que chegam ao interior de São Paulo são aliciados por “gatos” – intermediadores de mão-de-obra – em seus locais de origem. Trinta e dois por cento deles receberam adiantamento do “gato” para poderem viajar. Isto é, já chegam aos locais de trabalho com uma dívida.
Há uma ligação estreita entre o processo de modernização e a mobilidade espacial de milhares de pessoas. É o que mostram os estudos desenvolvidos pela socióloga Maria Aparecida Moraes Silva, professora da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos-SP). Há quase três décadas ela trabalha com a temática do trabalhador rural na cana, laranja e café. Ela identifica uma redefinição da cartografia migratória: (...)
* Depoimentos ao repórter.segunda-feira, 6 de abril de 2009
"Vida a qualquer preço? Não vale pra mim"
Um belo perfil de uma ciclista que morreu atropelada na avenida Paulista no dia 14 de janeiro. O autor é o jornalista Fausto Salvadori Filho. Seu blog Boteco Sujo traz a versão integral do texto que saiu condensado na revista Criativa.
[ dica do @inagaki ]
UPDATE 8/4: Fausto faz uma retificação:
Na verdade, o post não é "a versão integral que saiu condensada na revista", é o texto da revista com alguns acréscimos pessoais. Eu sei que parece a mesma coisa, mas só não quero dar a impressão de que usei o blog para "vazar" uma versão não editada da matéria.Ok, Fausto, tá feito o registro. Parabéns pelo texto.




