segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Eram cinco da manhã e o sol nascia

Um amigão dos tempos potiguares, Flávio Ferreira, deixou um bonito depoimento no meu orkut e aproveitou pra lembrar que já vomitei no carro dele. Faz vinte e tantos anos. Eu achava que já tinha deletado a cena da memória. Nada como uma idônea testemunha ocular pra imprimir esta marca na minha autobiografia não-autorizada. Assumo, es verdá. Agora tudo voltou (ops!) nítido: eram cinco da manhã em Ponta Negra, sol nascendo - sempre bem cedo naquelas paragens - e chegávamos duma festança boa. Ainda tive a decência de botar a cabeça pra fora da janela, mas foi vã a tentativa de livrar a porta... Não entrarei em detalhes sórdidos sobre odor e consistência. Naquela manhã, Flávio demonstrou ser um verdadeiro brother e um gentleman, pois lavou o carro sozinho.

Isso me trouxe um monte de lembranças agridoces, engraçadas, musicais, perfumadas. É curioso, sempre que evoco minha adolescência hedonista em Natal, as cenas vêm acompanhadas de bons odores, exceto em alguns casos como o supracitado. Talvez elas sejam editadas por um superego de bom gosto, sei lá. As recordações com Flávio envolvem noitadas com violão e turma animada, pilequinhos com tira-gosto de laranja na Bodega da Praça, acampamentos enluarados em praias com coqueirais, piadas sarcásticas e comentários jocosos sobre um pouco de tudo, empurrações de carros velhos, crônica falta de dinheiro, festas e mais festas - juninas, escolares, periféricas, a fantasia, sem convite -, o ombro amigo num momento trágico, natação em riacho no fim de tarde, longas caminhadas e papos filosóficos ao sol torrante com pés descalços... Flávio me apresentou pessoas queridas e me fez enxergar mais longe - por exemplo, quando demonstrou o poder do reiki.

Faz tempo que não vomito; pra felicidade do meu fígado, nunca mais consegui tomar cachaça e outros destilados com a disposição que tinha aos 15, 18 anos. Por outro lado, quando tento recuperar a sensação de otimismo ingênuo, a onipotência, a voracidade de viver a mil que eu tinha naquela época, é como tentar segurar água corrente com as mãos abertas. A juventude só acontece uma vez. É bom que seja assim, porque o que vem depois também é precioso e depende de ter existido o antes. O que me deixa muito grato à vida é que, nesse caminho, tive a sorte de fazer amigos incríveis. Poucos, bons, divertidos. Fundamentais. A gente passa anos sem se ver, mas na essência essa riqueza está preservada. Um brinde a isso!

domingo, 7 de outubro de 2007

As festas de outubro e uma encomenda do Ceará

Tia Cleide chegou hoje numa excursão de aposentados. Veio de Fortaleza, com escalas em Balneário Camboriú, Penha (Beto Carrero), Blumenau (Oktoberfest) e Itajaí (Marejada). Na bagagem uma encomenda especial: castanha de caju, rapadura e dois tijolos de polpa de tamarindo.

Gostei

e viramos adultos
sem aviso prévio
e sem indenização
Jeanine Will

sábado, 6 de outubro de 2007

Seção umbigo: a boa notícia da semana

Não vou precisar usar óculos. Pelo menos, não por enquanto. Daqui a um ano, talvez pra ler de perto.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007



Homenagem do blog ao Dia dos Animais (4/10).

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Trabalho escravo por Angeli

Free Burma

Free Burma!

Minha contribuição à campanha mundial de blogueiros pela liberdade em Mianmar, antiga Birmânia. A população do país é vítima de uma repressão brutal da ditadura militar. Todo apoio a esta causa é bem-vindo. Para participar, escolha uma imagem aqui no Flickr e coloque no seu blog. Mais informações sobre a campanha em www.free-burma.org

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Cotidiano, um laboratório de hipermídia

O Núcleo de Produção e Estudos Hipermídia Aplicados ao Jornalismo (NEPHI) da UFSC inaugurou ontem o portal http://www.cotidiano.ufsc.br . A proposta é que este seja uma laboratório para formação de alunos de graduação e pós-graduação do curso de jornalismo, para o qual vão convergir as atividades de várias disciplinas.

Novo atentado do Congresso

Agora contra a língua portuguesa. Tá na Folha de SP.

Escravocratas financiam políticos (2)

Na suíte da reportagem publicada ontem no Congresso em Foco, Lúcio Lambranho entrevista Leonardo Sakamoto, jornalista e cientista social que coordena a ong Repórter Brasil, focada no combate ao trabalho escravo. Sakamoto comenta a recente polêmica dos senadores que estão pressionando o grupo móvel de fiscalização do governo. Fala também da PEC 438 (Proposta de Emenda Constitucional) que prevê desapropriação de terras dos escravagistas, há 12 anos (!) em tramitação no Senado. Vale conferir.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Primeira frase do Pulitzer 2007 de não-ficção

Numa cabine de primeira classe de um navio de passageiros fazendo o trajeto de Alexandria, Egito, a Nova York, um escritor e educador frágil, de meia-idade, chamado Sayyid Qutb viveu uma crise de fé.
O vulto das torres - A Al-Qaeda e o caminho até o 11/9. Lawrence Wright.

Lonely Planet agora é da BBC

Aviso aos viajantes: a BBC comprou a Lonely Planet. Tony e Maureen Weeler, casal de australianos que há 34 anos criaram a série de guias de viagem, vão receber em torno de 120 milhões de dólares e ainda ficam com um quarto da empresa, que hoje tem no catálogo cerca de 500 guias de viagem escritos por mais de 360 autores. Nada mal pra quem começou com um único guia, vendido a granel em poucas livrarias pra pagar o aluguel da mãe da autora.

Sou grande fã dos guias LP. Alguns, como Central Europe in a Shoestring, e South America, já me foram bastante úteis na estrada. Trazem uma visão equilibrada e informal sobre praticamente todos os lugares do mundo onde é possível um ser humano chegar com uma mochila nas costas e pouca grana no bolso. Mas tenho uma ressalva: eles sofrem do "paradoxo do sucesso". Quando um guia LP recomenda uma pousada ou restaurante, em pouco tempo o lugar fica lotado de viajantes atrás da barbada e o resultado inevitável é a queda da qualidade.

Uma boa alternativa a esse paradoxo é o fórum do saite deles, The Thorn Tree, onde os viajantes têm a oportunidade de trocar dicas e idéias em seções segmentadas pelos mais diversos interesses, tanto geográficos quanto temáticos - mulheres, gays, idosos, viagens com crianças, viagens experimentais, viajantes com deficiências... É uma mina de ouro, sempre com informações atualizadas. Já fiz bons amigos por lá.

A proposta da BBC é manter o espírito de aventura que norteia a coleção e ampliar os produtos para outras mídias. Já os autores pretendem investir o dinheiro na Fundação Lonely Planet, dedicada a projetos educacionais e de conservação em países em desenvolvimento. Mais aqui (in English).

Escravocratas financiam políticos

Meu amigo Lúcio Lambranho, repórter do Congresso em Foco, é co-autor de uma boa reportagem investigativa, dessas que me dão esperança de que o jornalismo não vai só pela lógica "detergente". A matéria surge num momento bastante oportuno, em que senadores fazem pressão para desmoralizar o Grupo Móvel de fiscalização do governo federal, que liberta trabalhadores.

Política financiada pela lista suja

Empresas autuadas por explorar trabalhadores em condição análoga à de escravo doaram R$ 897 mil para 25 candidatos em 2006

Lúcio Lambranho e Edson Sardinha - Congresso em Foco

Empresas autuadas por manter trabalhadores em condições análogas à de escravo doaram R$ 897 mil para a campanha eleitoral de 25 candidatos em 2006. Levantamento feito pelo Congresso em Foco revela que dois governadores, três senadores, nove deputados federais e cinco estaduais receberam dinheiro de empresas incluídas na chamada "lista suja" do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). (...)

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Gato por lebre e a lógica do detergente

Continuando o assunto, o comentário de dois amigos jornalistas.

Anacris Oliveira:

A CBN está divulgando um comercial inacreditável: um "repórter" entrando ao vivo falando que a ponte está parada e que só é possível passar de moto. Anúncio da Amauri, com cara de reportagem.

Marques Casara:
Esse exemplo cai como uma luva para exemplificar a lógica do detergente, citada por Leandro Marshall em “O jornalismo da Era da Publicidade” (Summus, 2003). Confira alguns trechos:

“A publicidade não aceita mais apenas fazer vizinhança com o jornalismo. Portadora dos interesses do capital, a publicidade pressiona o jornalismo e opera na mesma lógica. A publicidade acossa o jornalismo, submete-o às mesmas regras e valores do capital, obrigando-o a relativizar seu compromisso com a verdade e com o interesse público”.

“A nova estética universaliza e radicaliza a práxis de mercado e atinge a essência da imprensa, das notícias, do noticiário, da informação e dos próprios jornalistas. .... passam a relativizar o conceito de verdade, de realidade, de conhecimento, de informação, de saber etc”

“Embora associe-se imprensa com verdade e jornal com informação, constata-se que a imprensa é consumo, publicidade e empresa privada. Os jornais contemporâneos viram mercadorias, submetidas a lógica do mercado, da audiência e do lucro, que passam a ser produzidas e vendidas dentro da mesma lógica que produz e vende detergente em pó.”