sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Cobrança indevida da BrTurbo (2)

Lillys, Aloisio, Izabel, Daniele e amigos que comentaram seus problemas com a cobrança da BrTurbo, obrigado pelas dicas. Relatei o caso ao ombudsman do iG, Mario Vitor Santos e expliquei que não sou o único. Também citei o telemarketing abusivo. Falha de gestão ou má fé? Prefiro acreditar na primeira hipótese. Há muito dinheiro em jogo no negócio da telefonia pra que empresas desse porte se dêem ao luxo de arriscar a credibilidade a troco de merreca. Aguardemos os próximos capítulos.

Frozen Grand Central


Uma performance coletiva bem bacana no Grand Central, o maior terminal de trens do mundo, em New York. Vi no Dharmalog do Nando.

Se você aproveitar a visita a esse ótimo blog pra descobrir o que é dharma, vai ganhar o dia.

Cobrança indevida da BrTurbo

Há três dias escrevi sobre o incômodo que têm sido os telefonemas do telemarketing da BrTurbo. E sobre a minha surpresa quando o rapaz disse que "no sistema" constava meu nome como cliente. Ontem fui surpreendido de novo: há uma cobrança indevida de 11 reais na nossa conta telefônica, por uma suposta assinatura dos serviços desse provedor de internet no dia primeiro de janeiro. Quase colou, pois não percebi, mas a Laura descobriu. Como a conta está em débito automático, o valor já foi embolsado pela empresa.

Liguei pra Brasil Telecom - de quem somos assinantes de telefonia fixa e nos envia as faturas de várias operadoras numa única conta - pra formalizar a reclamação (protocolo 88736308). Disseram que a BrTurbo tem prazo até 6 de março pra me informar sobre a resolução do problema. Aguardo meus 22 reais, já que, conforme as regras da Anatel para telefonia fixa, os valores pagos indevidamente têm que ser devolvidos em dobro (as novas regras da Anatel para a telefonia celular também prevêem essa devolução em dobro).

Muito barulho por mixaria? Imagine quantas vezes esse tipo de ação passa despercebido. Lição da hora: desconfie do sistema.

p.s.: Leia aqui os direitos do usuário de celular (arquivo pdf).

p.s.2: Bem que podiam ter me cobrado indevidamente uns 10 mil dinheiros. :)

p.s.3: O telemarketing da Vivo me ligou três vezes nos últimos dois dias. Eles devem usar um sensor de inconveniência: me pegaram numa consulta médica, dirigindo e jantando com a família e amigos.

p.s.4: Quando é que vão implantar no Brasil um sistema anti-chatos do telemarketing como esse que a Megui conta dos Estados Unidos?

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Os mortos na sala de jantar

Recebi hoje pelo correio e sorvi de uma tacada só Os mortos na sala de jantar, do amigo Ademir Demarchi (Realejo Edições, Santos, SP, 2007). Seu livro de poemas ficou mais de vinte anos na gaveta-tumba, até que, no ano passado, foi premiado pra publicação pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Ademir passeia por vários formatos de escrita em torno do tema da nossa finitude. Seus textos, longe de oferecer conforto, fazem refletir sobre as idéias prontas que se tem sobre bater as botas.

O poeta se vale de referências irônicas e ácidas sobre história, política, literatura e comportamento pra criticar as fantasias que escravizam as pessoas: "Combato essa sociedade que vende felicidade, vida eterna e morte assépticas conquistadas sobre muita miséria", diz. "Por isso a poesia que faço tem a pretensão, já de saída conscientemente falimentar, de ser eminentemente crítica. ... Combato também as idealizações platônicas que em geral envernizam as mentes de quem se mete com literatura, acreditando em fantasias como A Obra, O Autor, O Livro, O Poema etc.".

No prefácio, o crítico Raul Antelo assinala que Os mortos na sala de jantar se une a uma rica tradição que inclui artistas como Rubens, Rembrandt, Delacroix, Baudelaire, Marcel Duchamp, André Breton, Drummond e tantos outros. Ele cita o crítico de arte Georges Duhuit, para quem "o cadáver arrasta consigo a evolução dos estilos, serve às experiências perspectivas, aos ajustes de tonalidades, posa para efeitos de claro-escuro, é testemunha da diferença, do sério e até mesmo da majestade de uma personagem notável, instalado, porém, no espaço da função teatral, mero reflexo esverdeado em meio aos bajuladores de um lugar deslumbrante, por onde o homem comum já não pode mais passar".

Alguns poemas:

Da felicidade e da infelicidade

lá vai o viúvo
sorri sua mulher
morreu sua amante
~

Epitáfios

epitáfios são epígrafes
de histórias que continuam túmulo adentro
~

Leviatan

evita levita
~

Amazônia
(in memoriam)

descansa em paz
no chão e nos móveis da sala
~

Aviso


caminha com cuidado
pisa sobre teus
antepassados
O autor:
ademirdemarchi [arroba ] uol ponto com ponto br

A editora:
Realejo Edições / José Luiz Tahan
(13) 3289-4935
realejolivros [arroba] terra ponto com ponto br

Nim, uma árvore multiuso

Em dois meses, a nim plantada em nosso quintal passou do meu tamanho [p.s.: antes ela chegava à altura do meu ombro]. Essa árvore de origem indiana foi presente do meu sogro Augusto, que adorava falar das suas propriedades. Em poucos anos ela atinge dez metros de altura. A nim (muitos dizem "o", mas prefiro chamá-la no feminino, lembra Anaïs Nin) produz um extrato que é defensivo natural contra pragas em plantas e animais: combate carrapatos, fungos, bicheiras e outras tranqueiras. É repelente de 120 espécies de insetos. Seu óleo serve pra fabricar xampu, sabonete, pasta de dente, desinfetante e até tônico capilar. As folhas, maceradas em água, produzem um caldo amargo que alivia mal-estar de estômago e ressaca (testei pessoalmente e aprovei). Pesquisadores da Embrapa já identificaram mais de 150 substâncias de uso comercial que podem ser retiradas da Azadirachta indica A. Juss, também conhecida como amargosa. Engov, nunca mais.

p.s.: O Planeta Orgânico traz mais informações interessantes sobre o uso da nim em propriedades agroecológicas.

Educação



Cartum de Marcelo de Andrade.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Imagens de Cartagena

Cartagena de Índias foi fundada pelos espanhóis na costa caribenha da Colômbia em 1533. Não conheço, mas pelo que ouvi das descrições de viajantes e li nos relatos de Garcia Márquez, é uma das cidades mais belas do mundo. Lugar repleto de histórias de piratas e corsários. Os amigos Silvia Pavesi e Eumano Silva estão por lá agora e compartilham umas imagens no blog Fotos e Fronteiras.

Gostei bastante destas três. A da Silvia mostra a mistura de cores que surpreende nos pequenos detalhes da arquitetura colonial. Um ramo de planta sobre a parede descascada cria uma composição bacana com o ferro curvado do lampião.

As outras duas fotos são do Eumano, tiradas na linda luz do fim de tarde: uma escada em caracol no casario; e o amasso de um casal de namorados em cima da muralha antiga da cidade, com o céu rosado no horizonte e a amiga segurando vela. Dá quase pra sentir a brisa que vem do mar.

Deve haver um lugar bem distante

Reproduzo mensagem que a família Tuyama recebeu de Hugo, amigo de Augusto há longa data.

Amigos,

Acompanhei a angústia de vocês, que também foi minha, pelo blog do Dauro, que ainda não tive a oportunidade de conhecer, mas a quem passei a admirar pelo que li, pelo conteúdo das suas palavras, pela sua cultura...

Vi na lista das 67 lembranças que a música que ele lembrava “ Deve haver um lugar bem distante...” me trouxe à luz o dia em que ele deixou Mauá para ir para Rolim de Moura. Não o dia da mudança mas um dia em que ele havia retornado para cá e em seguida retornaria para ficar em definitivo. Ele retornou de ônibus.

Gravamos uma fita com várias mensagens dos amigos que ficaram e gravamos essa música ( o Cláudio no violão e nós dois cantando). Entregamos a fita com a condição de que ele deveria ouvir já na viagem de retorno a Rolim de Moura.

Nesse dia ele assistiu conosco, na minha casa, ao filme Gritos do Silêncio. Esse filme termina com a música Imagine, de Lenon ( que o Dauro disse ser uma das suas preferidas – minha também!). Mas a mensagem maior do filme era e a ligação de amizade profunda e irrestrita do repórter americano, com o vietnamita, seu amigo, por quem ele tanto fez para resgatar do Vietnã. Ele chorou junto com a gente porque entendeu a mensagem. Ele estava deixando amigos de verdade por aqui... e nós nos distanciando de um amigo irmão.

A música se chama BALADA DE UM HOMEM SEM DESTINO – cantor: Sérgio Murilo.

Deve haver um lugar bem distante
Outro céu, outra terra, outro mar,
Onde possa viver sem sofrer, sem chorar
Onde a paz e o amor eu consiga encontrar
Caminhando, sem rumo, eu vou sem destino
Procurando encontrar um mundo melhor.
Onde possa viver, sem sofrer, sem chorar.
Onde a paz e o amor eu consiga encontrar.

Durante todos esses dias de angústia eu toquei essa música no teclado. Parecia que ele iria ouvir. Quem sabe...

Embora distantes, estou com vocês em meus pensamentos e sofrendo também com a nossa perda.

Hugo Antonio Suffredini

Mauá, SP

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Telemarketing e o sistema

Hora do almoço. Toca o telefone e atendo enquanto o feijão preto me espera no prato.

- Sim?
- Bom dia, aqui é da BR Turbo! O senhor é o responsável pela internet?
- Sim, sou eu.
- Nós gostaríamos de estar lhe oferecendo um plano especial de proteção contra vírus de computador e ataques de hackers...
- Muito obrigado, mas meu micro já está protegido. E tenho contrato de fidelidade de um ano com outro provedor de internet.
- No nosso sistema consta que o sr. é cliente da BR Turbo.
- Não sou nem nunca fui.
[e o feijão esfriando]
- Mas consta do sistema...
- Que sistema, rapaz?! Já disse que nunca fui cliente de vocês. E se continuarem insistindo eu...
[cai a ligação ou ele desliga]
~
Não é a primeira vez que o telemarketing dessa empresa me enche nas horas mais incômodas. Costumo ser gentil, sei que a profissão dessa gente é ingrata pracarai. No começo me alongava nas negativas, só faltava pedir perdão por não comprar nada. Depois automatizei a resposta-padrão do contrato de fidelidade. Mas essa última foi de lascar. Duas horas depois, me toquei de um absurdo na abordagem dele que teria me dado um excelente argumento:

- Peraí! Como é que você diz que eu sou cliente da sua empresa, se agorinha me perguntou se sou o "responsável pela internet"?

(vou lembrar dessa na próxima; se bem que prefiro as saídas menos cerebrais e mais espirituosas, tipo: "Me dá o número do seu celular que dou retorno em seguida"; "Aguarde um minutinho, por favor"; ou "Olha, foi bom você ligar, acabei de sair da condicional, tou desempregado e ninguém me dá crédito").

Ah, o feijão, acompanhado de farinha com pequi, tava uma delícia.

A presença da ausência

Ontem, 25 de fevereiro, Augusto estaria completando 68 anos.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Em casa

Depois de nove semanas, 9.497 km percorridos de um canto a outro do Brasil e um acidente fatal na família, voltamos pra casa. A vida segue.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Quase em casa

Chuva forte por horas seguidas. Na descida da serra entre PR e SC, o trânsito ficou interrompido um tempão por causa de um acidente. Anoitecia e o aguaceiro não parava, então resolvemos passar a noite em Joinville. Jantamos num restaurante chinês na esquina do hotel.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

A caminho de casa

Dia 5 (22/fev): MS-SP-PR. Estradas razoáveis/boas e tranqüilas. Rodamos 740 km, parte em rodovia duplicada (a Rondon em SP). Miguel teve um pouco de febre, medicamos e melhorou.

Almoço em Birigüi, no oeste paulista; depois os meninos brincaram num parquinho da loja da Klin, fábrica de calçados infantis com sede no município. Passamos ao largo de Ourinhos, onde dormimos na ida - muitas lembranças recentes. Pernoite em Santo Antônio da Platina, PR.

Neste sábado vamos à reta final de uma longa viagem - ao outro canto do país e a regiões inesperadas das nossas almas. Sobre essa jornada interior de dor, perplexidade, saudade e busca da aceitação, ainda não tenho muito o que dizer. Por enquanto meus relatos só arranharam a superfície. Talvez as palavras venham com o tempo, mas vão ser sempre traduções imperfeitas do que vivi e vivemos.

A viagem continua.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Diário de viagem: RO-SC

Dia 1 (18/fev): Rolim de Moura (RO)-Cáceres (MT). Uma provação pra cabeça. Escala em Pontes e Lacerda pra pegar documentos tristes. Dois meses depois do acidente (e dez dias da morte de Augusto), as lembranças nos apertam quando passamos por ali de novo. Eu choro ao volante; Bruninho, inocente, ri e canta. Algumas músicas foram ensinadas pelo avô. Em Cáceres pernoitamos na casa de dr. Jefferson e d. Gleide, a generosa família que adotou os Tuyama em Mato Grosso.

Dia 2 (19/fev): Ainda em Cáceres, troca de óleo, lavanderia, comprinhas e mais papelada burocrática. Saímos 15h. À noite, hotel na Serra de São Vicente, em Águas Quentes (MT). No meio da mata, com termas a céu aberto, riacho, banho de cachoeira. Lugar especial. Dormimos numa casa de pedra, ouvindo água corrente.

Dia 3 (20/fev): de manhã, termas e sossego. Vimos um macaco na floresta. À tarde muita chuva, buracos na estrada, caminhões. Hotel em Rondonópolis, a capital do agronegócio. Pregados de cansaço, ignoramos o eclipse da lua e a renúncia de Fidel.

Dia 4 (21/fev): neblina, depois sol forte, mais caminhões e buracos. Retões com soja dos dois lados. Avestruzes, silos, colheitadeiras. Nuvens enormes. Em MS o asfalto melhora muito. Chuva forte no fim de tarde, ficamos parados quase 1h num posto. Hotel em Ribas do Rio Pardo (MS). Pizza no quarto.

Na seqüência: SP

sábado, 16 de fevereiro de 2008


Tempo de pegar a estrada. A partir de segunda-feira rumamos de volta à Ilha, sem pressa, com todos os sentidos bem ligados pra fruir a lindeza do caminho. Abração em todos que nos acolheram com carinho e amizade nesses dois meses em Mato Grosso e Rondônia. Muito amor! Até outro dia.


Trilha no Cacoal Selva Park Hotel (Sítio do Nério) em RO.


Parquinho em Rolim de Moura, RO.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Mais lembranças de Augusto (82-95)

82. Ele usava boina portuguesa, presente dos amigos. Era muito interessante ver um japonês com uma boina portuguesa, que figura! (Sônia)
83. Augusto pergunta ao Estéfano: você é meu neto? Estéfano responde: Não, Neto é o meu pai. (Sônia)
84. Augusto vai procurar remédio para matar pulgas do Fanto, a atendente informa que há dois tipos de remédio e ele responde: "Pode ser daqueles que mata a pulga uma vez só..." (Sônia)
85. Ele benzia a bebida dizendo umas palavras em latim, terminava com saravá... e estalava os dedos... você lembra da frase, Dauro, será que a mãe lembra? (Sônia)
86. A Laura lembra que era mais ou menos assim: "Saúde, implórivus, anticolórivus"
87. "Como vão os movimentos parados da nação?" (Sônia, Ana, Laura)
88. "Fique com os anjos, arcanjos, querubins, serafins e .... não me amole!". (Sônia, Ana, Laura, Nilza)
89. Dica para não enjoar em alto mar: amarrar um saco plástico em volta de toda barriga. (Sônia)
90. Uma piadinha de mineiro que ele gostava de contar: "- Cumpadi, o que ocê acha de nudez? - Mió nu deis que no nosso..." (Ana)
91. Uma história do tempo da floricultura: o homem encomendou um buquê de flores pra amante, mas por engano deu o endereço da própria casa. Augusto foi entregar as flores e quando chegou, viu o homem desesperado fazendo sinais de não pela janela. (Laura)
92. Ele tinha costume de trazer animais doentes e feridos pra tratar em casa. (Nilza)
93. Abrigava em casa, às vezes por meses, pessoas que não tinham pra onde ir. (Nilza, Ana, Laura)
94. Assinou uma autorização pra Ana, então menor de dezoito, viajar pra assistir ao primeiro Rock in Rio. (Nilza)
95. Quando a Laura se mudou de Rondônia pra São Paulo, fez um discurso na festa de despedida no Banco do Brasil em que todos choraram. (Carlota)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Mais lembranças de Augusto (68-81)

O tempo é santo remédio pra aliviar a dor, mas o preço disso é uma parcela da nossa memória. Talvez só assim a gente consiga tocar a vida: graças à abençoada proteção de uma névoa que, com o passar dos meses e anos, suaviza os contornos do que se foi e nos ajuda a ver o presente.

Ainda bem que a escrita e as conversas ajudam a guardar pequenos tesouros de quem nos deixou marcas. Fico contente que as pessoas estão contando aqui suas lembranças de Augusto Tuyama. Elas se somam às primeiras 67 que escrevi.

Passo longe da pretensão de fazer uma biografia ou lista de "melhores momentos". Muitas dessas lembranças são só pedacinhos do cotidiano, anedotas, fatos curiosos. Algumas podem depois ser desenvolvidas em boas histórias ou melhor contadas, por mim ou por vocês.

Se você o conhecia, seu tributo neste memorial coletivo é muito bem-vindo. Se não teve a sorte de conhecê-lo, pode ter uma idéia de quem foi este homem especial. Imagine que estamos numa mesa de bar em frente ao mar, num papo descontraído, e vamos recordar juntos.
...
68. "Sabon ou saboa?" - perguntando como estávamos. (Fátima Simãozinho)
69. "Este Gurgel é como coração de mãe, sempre cabe mais um." - Quando ia recolhendo a garotada ao longo do caminho da escola, pra dar carona. (Fátima Simãozinho)
70. O estalar de dedos acompanhado de uma gargalhada, quando ouvia o final de uma história que gostasse muito. (Neto)
71. "Desculpe por tudo. Da próxima vez boto só a metade". Estas foram as últimas palavras que ouvi dele, em janeiro de 2005, no Campeche. Um dia vamos nos encontrar outra vez, e eu vou poder contar as piadas que guardava para a minha próxima viagem ao Sul e para ouvir mais um pouco da sua sabedoria. (Camillo)
72. Eu ia la no viveiro dele tirar foto das flores e ele me ajudava e mostrava as melhores flores e tal... Depois descobri que o sacana ainda falava: "Um homem daquele tamanho tirando foto de flor" hauhahauhahauah (Paulinho)
73. "De longe é uma grande distância" (ele falava coisas assim com um tom de conversa séria, rindo com os olhos).
74. "Capital das Reservas Futuras" (sobre Novo Horizonte, lugarejo que praticamente só tinha mato, caçoando dessa história de os os municípios pequenos adotarem títulos de capital de alguma coisa).
75. "É poco, né?" (imitando sotaque japonês pra brincar com o nome da cidade matogrossense que pretendíamos conhecer juntos).
76. Ele nunca tirava acessórios antes de vender carros. E quando ia comprar, desistia de imediato do negócio se o vendedor quisesse fazer isso.
77. Quando ia comprar qualquer coisa, jamais botava defeito pra melhorar a oferta. "Se eu não puder elogiar eu fico calado", era um de seus bordões favoritos.
78. Quando era rapaz, tinha uma namorada cujo pai só deixava ir ao cinema se fosse acompanhada dos irmãos. Pra não ter que pagar a entrada de todos, combinava com a moça: "Eu vou chegar um pouco atrasado, me espere na terceira fila".
79. Na infância, tinha um cachorro chamado Sil, homenagem ao cantor Sil Farney. O cão o acompanhava no escuro até o lugar onde ele pegava o ônibus pra escola. Na volta ele descia do ônibus, dava um assobio e Sil aparecia.
80. Quando menino, caminhava levando as alpercatas nas mãos pra não gastarem. Um dia levou uma topada no dedão e comemorou: "Ainda bem que estou descalço!"
81. Dona Nilza conta que, quando eram namorados, passeavam na rua no interior de Minas Gerais quando viram uma banquinha de rapadura. Ele perguntou: "O que é isso?" Ela: "Nunca viu rapadura?" Ele: "Não". Tempos depois ela estava na cidade dele em São Paulo e viu o doce: "Uai, tem rapadura aqui?" "Sim, tem muita". Aquela pergunta tinha sido só pra puxar assunto.


Pôr do sol em Rolim de Moura, Rondônia.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Lembranças de Augusto

Hoje me despeço pra sempre do homem que tanta importância teve na minha vida: pai da minha amada, avô dos meus pequenos, amigo, vizinho, colega de ioga, companheiro de viagem e dos almoços de domingo. Digo adeus ao meu segundo pai.

Augusto Tuyama foi uma das pessoas mais fascinantes que já tive a honra de conhecer. Homem de caráter reto. Generoso, espirituoso. Apaixonado pela liberdade e pelos espaços abertos, sempre fez o que quis. No começo dos 80, deixou uma vida confortável de pequeno empresário de automecânica em SP pra desbravar Rondônia, primeiro sozinho em seu Toyota, em seguida com a família. O japonês era voluntarioso, tinha imensa confiança no próprio tino. Viveu com intensidade. Desapego e bondade foram suas grandes marcas. Tinha satisfação em ajudar os outros, participar de movimentos comunitários. E coragem pra recomeçar. Há poucos anos, ele e Nilza resolveram pegar de novo a estrada e se mudaram pra Florianópolis. Assim, Laura, os meninos e eu tivemos o privilégio de um convívio intenso com esse lindo casal.

Ele tinha um senso de humor finíssimo e raros momentos de irritação. Curtia as coisas simples, o trabalho ao sol com as plantas, o bate-papo com os amigos e conhecer gente. Estava sempre plantando sementes e maquinando idéias novas - dispositivos mecânicos e hidráulicos, negócios, viagens.

E foi num acidente estúpido de viagem em Mato Grosso, seguido de sete semanas de coma, que o perdemos. A estrada era sua praia, essa fatalidade podia ter ocorrido na esquina de casa. Por quê?, por quê?, tenho me perguntado. Assim foi. Tinha de ser. Ele não esperava ir tão cedo - nem nós. Tinha só 67 anos, muitos planos e vitalidade de um rapaz de 40. No meio da nossa dor e da saudade imensa, fica o consolo de que o Tuyama era um homem realizado. A missão dele foi cumprida de maneira exemplar. Ficamos agora com a nossa: preservar sua memória; viver e passar adiante seus ensinamentos; e cuidar bem das sementes, pra que virem belas árvores, homens e mulheres de olhinhos puxados que enxergam longe.

67 lembranças de Augusto:

1. o assobio ao chegar
2. sashimi de anchova
3. bastante arroz branco no prato
4. salada no fim do almoço
5. sesta deitado no chão
6. kawai kawai = carinho em animais
7. a árvore da montanha (música)
8. tá na hora de dormir (canção de ninar)
9. "nota sete" (bem humorado, sobre a vida)
10. "ô vidinha sacrificada" (enquanto abria uma latinha e assava peixe no quintal)
11. a piada do homem que trocou o remédio da mulher pelo da vaca
12. relato sobre a paranormalidade da mãe, que trocou Nagasaki pelo Brasil
13. passeios com o Fanto, o buldogue que era o seu xodó
14. catando mariscos no costão; catando sementes de palmeira no aterro do Flamengo
15. falando entusiasmado da árvore indiana nin e do potencial da andiroba
16. conversas inspiradas sobre plantas e gente
17. história amazônica: a carga de banana pra Manaus
18. história amazônica: o caminhoneiro egoísta
19. história amazônica: o caminhoneiro solidário
20. história amazônica:
a carga de peixes
21. infância: fábrica de saquê
22. infância: pescaria com as mãos/natação na represa
23. infância: leiteiro
24. infância: caçada de rãs e jantar
25. juventude: o fiasco do negócio de alisamento de cabelo
26. acampamentos no litoral paulista com os filhos (e o caranguejo dentro do carro)
27. pescarias em alto mar
28. o plano de ir a Portugal, trocado por uma inesquecível pescaria no Pantanal
29. aventuras rondonienses na Toyota, transportando todo tipo de gente: garimpeiros, posseiros. jagunços, policiais, corpos
30. histórias da Juventude Operária Católica: debate com o agitador que pregava a luta armada; os amigos presos, torturados e desaparecidos
31. o encontro com Nilza num evento do hotel Quitandinha, em Petrópolis
32. "90% é pensamento lógico" (dica básica pra resolver problemas)
33. a idéia de fazer um ofurô a energia solar
34. histórias da floricultura e do viveiro de plantas
35. explicando como fez sozinho a drenagem do terreno
36. caçoando do medo de voar: "Eu olho pra minha malinha, olho pro avião e penso: se cair, o prejuízo deles vai ser bem maior".
37. a lembrança mais forte de Miguel: o vô o buscando na escola
38. vendo comigo um filme de terror na madrugada
39. comentando as pechinchas que conseguiu em compras e negócios
40. seus vasos, placas e bolas de cimento
42. sua discriçäo como confidente
43. sua sabedoria como conselheiro
44. congratulações aos genros e nora: "Parabéns pelo sogro que você tem".
45. cumprimento maroto: "Deu pra sarar?"
46. para a neta quando era pequena:"Camilinha, eu gosto muito do vô, e você?" E ela: "Também!"
47. o desapego
48. jogo de paciência no computador
49. palavras cruzadas
50. "anjas", "fìotas" (as netas)
51. um sonho de viagem: descer o rio Madeira até Manaus
52. um projeto da fábrica caseira: banquinhos de cimento
53. as aulas de ioga: ohmmm...
54. uma caminhada na praia e o inusitado convite pra passear nas dunas
55. nossos passeios de barco pela Lagoa da Conceição
56. almoços na praia do Pântano do Sul
57. ele e eu num trapiche do Ribeirão da Ilha comendo peixe no fim de tarde e tomando uma cachacinha artesanal
58. as histórias da Apae
59. as histórias do cooperativismo
60. dica: comer alho antes de entrar na mata pra evitar malária
61. dica: trilha na mata com um saquinho de açúcar e um de sal pra fazer soro
62. as vezes em que tirou meu carro velho do prego
63. passeio com a criançada nas dunas da Joaquina (um fim de tarde feliz)
64. música: "Deve haver um lugar bem distante/outra terra, outro céu, outro mar..."
65. quando eu chegava em sua casa: "Uma cerveja, mestre?"
66. os sorrisos de felicidade imensa no verão de 2007, quando a família se reuniu um mês inteiro em Floripa
67. a preparação da viagem, vendo mapas comigo, e os encontros que tivemos pelo caminho, até o último almoço no restaurante flutuante em Cuiabá (p.s.: a última vez que o vi consciente foi um pouco mais adiante, no portal turístico de Cáceres; papeamos sobre a cidade das pescarias, comemos sirigüelas, encontramos um besouro gigante e ele colocou um carrinho de brinquedo dos meninos ao lado do bicho pra eu fotografar).

Vá em paz, Augusto! O perfume da sua presença fica com a gente pra sempre.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Adeus

Com tristeza informo que Augusto (Hideharu) Tuyama faleceu nesta sexta às 22h30, hora local, no hospital regional de Cáceres, MT. Em nome da família agradeço o carinho que vocês nos deram nessas sete semanas. Augusto era um homem feliz - nos disse isso várias vezes com palavras e gestos. Deixa quatro filhos, nove netos e muitos ensinamentos. Lembrem dele sorrindo.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Todos os acontecimentos são ótimas oportunidades para a evolução.

Diante de uma situação muito difícil e penosa, talvez você pense: “Não sou capaz de enfrentá-la”. Mas saiba que essa é a chance de você dar um grande salto. O ser humano não consegue nenhum progresso enquanto se limita a enfrentar apenas pequenas barreiras, facilmente transponíveis. Mas, quando enfrenta a dificuldade e realiza o que lhe parecia impossível, alcança grande progresso.

Do livro Nobiyuku Hibi no Kotoba (4) – Seicho Taniguchi
Hoje em Palavras de Luz, calendário da Seicho-No-Ie.

Notícias de Cáceres: dia 50

Hoje o acidente automobilístico sofrido por Augusto e Nilza completa 50 dias. A situação dele permanece grave, mas estável. Está inconsciente na UTI do Hospital Regional de Cáceres (MT). Na madrugada de 1 de fevereiro, teve parada cardíaca, foi reanimado e voltou ao respirador mecânico. No dia 2 teve outra arritmia, também controlada. Seu pulmão está com um dreno para retirar secreção. Vários reflexos continuam presentes. Há alguns dias ele encolheu as duas pernas - a primeira vez que fez esse movimento deste o início do coma. O susto da última semana foi superado, mas indica que é preciso esperar um pouco mais antes da transferência para uma enfermaria, como os médicos chegaram a cogitar.

Blogs de jornalistas

Mapa colaborativo no google maps: jornalistas blogueiros. Dica do Intermezzo.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Anotação de leitura: o outro

"Mesmo o mais liberal sistema de nomenclatura psiquiátrica comete uma violência contra a essência da pessoa. Se nos relacionamos com as pessoas achando que podemos categorizá-las, não iremos nem identificar nem cuidar das partes vitais do outro que transcendem a categoria. O relacionamento possível sempre supõe que o outro jamais pode ser inteiramente conhecido."
Irvin D. Yalon - O carrasco do amor e outras histórias sobre psicoterapia (em "Dois sorrisos").

Frank Maia, o retorno



Frank retornou das férias no dia 31, sem motivo pra comemorações: a RBS fechou o AN Capital, suplemento do joinvilense A Notícia. Mais um passo na estratégia do grupo rumo ao monopólio do jornalismo impresso em SC (Cesar Valente, Carlos Damião e Rogério Christofoletti lamentam em seus blogs o fechamento do jornal; Jacques Mick conta como a RBS comprou A Notícia). Todos da redação foram demitidos, com exceção de Frank e de outros dois colunistas. Compreensível: desfazer-se de um dos maiores talentos brasileiros da charge seria uma insensatez para o negócio. Fevereiro começa com o clima pesado, mas pro artista do riso o show tem que continuar. Matéria-prima no noticiário não falta.



p.s.: Pros leitores de outros países ou planetas, o contexto da primeira e da segunda charge.

Dica on the road

O Google Earth traz agora informações detalhadas sobre estradas de 26 novos países: Rússia, Malásia, Tailândia, Aruba, Bahamas, Belize, Bermudas, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, St. Kitts e Nevis, Trinidad e Tobago, Uruguai e Venezuela. Foram acrescentados nomes de lugares em Taiwan, Rússia, Austrália, Nova Zelândia, Brasil e Turquia.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Dia 45: um susto

Ontem à noite Augusto teve uma arritmia cardíaca, possivelmente provocada pela sobrecarga dos pulmões pra respirar, pois ainda há muita secreção. Ele foi reanimado e colocado outra vez no respirador mecânico. Os médicos vão fazer um procedimento para drenar um pneumotórax - acúmulo anormal de ar entre o pulmão e a membrana (pleura) que reveste o tórax. Ele teve febre, mas foi controlada. Sua condição é estável agora. Hoje é o quadragésimo-quinto dia de coma. A batalha continua.

Anotação de leitura: rede 3G

Depoimento na matéria de capa da InfoExame de janeiro sobre as vantagens das redes sem fio:

"Estava no trabalho e meu filho ficou entre os primeiros [no campeonato de natação]. Na hora de receber a medalha, minha esposa fez uma videochamada e pude acompanhar a cerimônia a distância".
A tecnologia 3G pra celulares ainda não permite dar abraços e beijos a distância.