O Valor Econômico publicou ontem minha reportagem sobre a reconstrução em Blumenau e em Ilhota depois da enxurrada. O segundo texto, sobre a visita ao Morro do Baú, foi bastante condensado. Coloquei aqui a versão na íntegra, com diversas fotos de Juliana Kroeger que também não saíram no jornal.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
De enxurrada, guerra, jornalismo e odores
No domingo concluí uma reportagem pro Valor Econômico sobre a pós-tragédia no Vale do Itajaí. Eu já tinha enviado o texto pro jornal e precisei atualizar o número de mortos - agora são 128, acharam o corpo de um homem em Ilhota. As cenas e o cheiro de destruição no Morro do Baú continuam voltando à memória sem pedir licença. Efeito colateral da atividade do repórter que vai a campo: o envolvimento emocional é inevitável porque a gente cria vínculos, mesmo que superficiais. De perto, o olhar e a respiração das pessoas deixam marcas.
A enxurrada em Santa Catarina tem sido comparada com freqüência a uma guerra. Minhas referências bélicas são só de livros, reportagens (lidas/vistas), filmes e relatos de colegas, mas imagino que não seja de todo descabido o paralelo. No estado de suspensão momentânea ou duradoura da vida normal, as pessoas passam a depender muito mais dos instintos. Surgem os atos de bravura e os abjetos casos de ruindade. Tudo demasiadamente humano, sem verniz. No meio disso tudo, os repórteres colocam sua subjetividade a serviço do desafio narrativo. De certa forma pode ser excitante, mas qualquer glamour que se enxergue nesse tipo de trabalho é pura ilusão.
Amigos repórteres que cobriram conflitos armados (Marcelo Spina, Fernando Evangelista) comentaram comigo sobre como é difícil conciliar a emoção com a obrigação de apurar e contar. Os profissionais reagem de diferentes maneiras às situações-limite. Existem os que se abrigam na proteção do humor ou do cinismo. Outros se fecham. Alguns se tornam viciados em perigo e desenvolvem a sensação de ter o corpo fechado, como contou uma vez o José Arbex, que nos 80 era correspondente da Folha de São Paulo na União Soviética e cobriu a guerra do Afeganistão.
Medo: quem tem, tem. Quem não tem, é porque falta um parafuso. Marques Casara me contou que sentiu o cheiro fedido do medo no próprio suor enquanto entrevistava, usando um microfone escondido, um chefe de esquadrão da morte no sertão nordestino. No Afeganistão, Yan Boechat se empolgou ao ver um tanque russo abandonado na margem da estrada. Foi até lá e percebeu, pelos gritos dos nativos, que tinha caminhado por um campo minado. Voltou pisando nos próprios passos e sabe-se lá que cheiro sentiu. Em Ramallah, na Palestina, Fernando Evangelista viu uma senhora ser abatida por um franco-atirador a poucos metros dele, e nada pôde fazer pra ajudá-la. Na Somália, a câmera filmadora de Marcelo Spina foi atingida na lente por um tiro de fuzil. Depois, a janela de seu quarto no hotel foi metralhada e ele, em choque, decidiu sair do país.
Jornalista, bombeiro, policial ou médico na emergência de hospital público, o profissional que lida com situações de tensão e risco precisa ter estabilidade emocional pra realizar o trabalho - e estômago pra suportar cheiros bem desagradáveis -, senão termina atrapalhando mais que ajudando. Cada um emprega os artifícios mentais de sua preferência pra manter a sanidade e seguir em frente. A correta avaliação do tamanho do próprio ego é uma garantia a mais de avançar sem muitos arranhões - embora, na vida, qualquer garantia deva ser vista com ceticismo. Coloco tudo na balança e acho que encarar o tédio dos trabalhos sem sentido é um desafio bem mais penoso.
Mais chuva em Santa Catarina
São Pedro voltou a abrir as torneiras. Entre ontem e hoje, choveu na região da Grande Florianópolis o equivalente à quantidade de chuva de todo o mês de dezembro. Em Palhoça, no continente, 120 pessoas tiveram que deixar seus apartamentos por causa de um deslizamento de terra. Houve quedas de barreiras em várias estradas do litoral. O sul da Ilha, onde moro, mais uma vez foi bastante atingido. Pela manhã a SC-405 teve o trânsito interrompido por causa da lâmina dágua que cobria o asfalto. Algumas famílias estão desalojadas no Campeche e várias ruas, praticamente intransitáveis - a minha, por exemplo.
Meu quintal alagou de novo. Amanhã, se a água tiver baixado, o pedreiro começa as obras de contenção do muro dos fundos, que ficou abalado com a pressão das águas de novembro. Também precisamos adotar uma solução efetiva pra evitar novos alagamentos - é isso ou assumir de vez a vocação pra dono de pesque-pague. Um engenheiro conhecido nosso fez uma vistoria e recomendou alternativas, entre elas a drenagem do quintal e a construção de uma cisterna com uma bomba dágua automática. Galerias pluviais nas ruas, uma obrigação da prefeitura, ainda são uma miragem.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Relatos sobre trauma e superação
A jornalista Raquel Wandelli, professora da Unisul, foi uma das companheiras de viagem ao Vale do Itajaí na semana passada. Ela escreveu dois relatos sobre os atingidos pela enxurrada: um sobre a visita ao Morro do Baú, em Ilhota, e o outro sobre o trauma da tragédia que atinge adultos e crianças. Fotos de Juliana Kroeger.
Voluntários da safadeza e soldados da rapinagem
Reportagem de Edson Silva e Francis Silvy pra RBS-TV em Blumenau, com microcâmera escondida, mostra militares do Exército e falsos voluntários desviando donativos que iriam pros atingidos pelas chuvas.
sábado, 13 de dezembro de 2008
Especialistas falam sobre causas dos deslizamentos
Em reportagem para o portal informativo swissinfo, Geraldo Hoffmann entrevista especialistas que concluem: a causa dos acidentes ocorridos com a enxurrada em Santa Catarina não é só da mudança climática. Trecho da entrevista com a professora de Engenharia Ambiental da Universidade de Blumenau (Furb), Beate Frank:
...A íntegra da reportagem
Beate Frank têm dados que confirmam a avaliação do especialista suíço. "As montanhas do Baixo Itajaí são muito frágeis. Elas têm entre 600 milhões de 2,4 bilhões de anos. Por causa dessa fragilidade, em grande parte, não deveriam ser ocupadas. Mas, após as enchentes de 1983 e 1984, a urbanização dos morros se acelerou. Devido à falta de planejamento e fiscalização, muitos desses locais se tornaram zonas de risco, que, em parte estão mapeadas, mas não são interditadas pelas administrações municipais."
A pesquisadora menciona ainda dois outros problemas. Desde 1983, foram feitos mapas de risco de dez cidades ao longo do Rio Itajaí-Açu. "Até agora, apenas Blumenau, Gaspar e Rio do Sul respeitam esses mapas no zoneamento urbano."
E mais: apenas dois dos 52 municípios do Vale do Itajaí respeitam o Código Florestal, segundo o qual, ao longo de rios com até 10 m de largura, deve ser mantida uma faixa de proteção de 30 m; às margens de rios mais largos, 100 m. As imagens aéreas da catástrofe comprovam que o código é simplesmente ignorado.
"Nem as estradas federais e estaduais respeitam essa lei e, por isso, em parte, foram arrancadas pelos rios. Nossas cidades – estradas, casas etc. – estão construídas diretamente nas margens dos rios. A maioria se satisfaz com uma faixa de proteção de 5 m. Por isso, as enxurradas dos rios adjacentes causaram tantos estragos", explica Frank.
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sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Uma visita à área vermelha no Morro do Baú
Cheguei ontem de uma viagem de trabalho a Ilhota e Blumenau, onde fui levantar informações pra uma reportagem sobre a reconstrução depois da enxurrada. Foram dois dias impactantes, não só pelas cenas de destruição que pude presenciar, como pelo trauma emocional das pessoas com quem tive contato. Ouvi histórias de perdas terríveis que ainda estão sendo assimiladas com dificuldade (atenção psicólogos, Santa Catarina precisa de voluntários!). Também pude observar belos exemplos de força de caráter, solidariedade e coragem diante das adversidades.
Fui acompanhado da repórter fotográfica Juliana Kroeger, da professora de jornalismo Raquel Wandelli (Unisul) e do estudante de jornalismo Vicente Figueiredo (faculdade Estácio de Sá). Depois de passarmos por duas barreiras policiais, entramos na "área vermelha" da região do Morro do Baú, no município de Ilhota, onde o acesso ainda está parcialmente interditado pela Defesa Civil por causa do risco de novos deslizamentos de terra. Eu já esperava encontrar uma situação feia, mas a realidade conseguiu se mostrar pior que as cenas mostradas na tevê. Três semanas depois da enxurrada, o quadro ainda é de devastação.
Braço do Baú é uma comunidade agrícola de 1.300 habitantes onde morreram 13 pessoas soterradas na tragédia. Entramos na "área vermelha" acompanhados de Nelson Richarts, dono de um posto de gasolina e de uma pequena facção de toalhas que se ofereceu para nos guiar. Richarts perdeu oito parentes e dois funcionários. Toda a área permanece sem energia elétrica e com acesso precário. Seguimos até o mercadinho Richarts, de um primo dele, o último ponto onde dá pra ir de carro - a partir dali as estradas foram varridas do mapa, isolando as comunidades do Alto do Baú e do Baú Seco.
Marrom é a cor predominante. A estrada barrenta margeia um riacho turvo que teve o curso desviado. Pelo caminho, árvores e postes tombados, detritos de todo tipo. Cheiro de matéria orgânica em decomposição. Residências, pequenos negócios e galpões destruídos. Muitas casas abandonadas com portas e janelas abertas, indicando que seus moradores deixaram tudo pra trás às pressas. No jardim de uma delas, estátuas de Branca de Neve, do Príncipe, dos Sete Anões e da Bruxa estavam cobertas de lama até a cintura. Reproduções de estátuas greco-romanas jaziam como que abatidas por um pelotão de fuzilamento. Na sala e nos quartos, fotos dos familiares na estante, um crucifixo, poltronas, papéis, roupa de cama. E muita lama.
Gentil Pedro Reichert, dono da Marcenaria São Pedro, mostrou como as máquinas de sua empresa foram soterradas pela lama vinda do morro. Estava revoltado com alguns jornalistas, que atribuíram o desastre ao desmatamento para extração de madeira ("aqui nós sempre trabalhamos com madeira de reflorestamento vinda do Paraná") e para plantações de banana - os deslizamentos, pelo que pudemos observar, ocorreram em lugares de mata fechada. Havia também uma tensão visível dos locais em relação aos policiais militares - que restringem o acesso - e aos especialistas, que vão e vêm e não lhes dão retorno sobre as avaliações técnicas.
Uns poucos moradores estão visitando pela primeira vez a área interditada e ensaiam um tímido início de limpeza dos estragos nas casas liberadas pela Defesa Civil (as marcadas com a letra C permanecem com acesso proibido). Vi uma tristeza imensa nos olhos dessas pessoas, não só pela perda do que conseguiram juntar com anos e anos de trabalho, mas também pela maneira súbita como tantos parentes, amigos e vizinhos desapareceram. Lembrei de um conto de Guimarães Rosa em Sagarana sobre uma vila mineira atacada pela malária. Minha impressão é que aquele lugar tende a definhar. Muitos já foram embora, ou por não terem mais onde morar, ou porque querem esquecer o que viveram ali. Na volta, paramos no posto de Nelson Richarts para deixá-lo e ele nos fez uma gentileza que mostra a hospitalidade da gente local: pegou nossas galochas enlameadas e as lavou ele mesmo, uma por uma, com jatos de água sob pressão.
O Braço do Baú ficou pra trás e seguimos pela estradinha entre arrozais soterrados e uma linda paisagem de morros verdes até Baú Baixo. Lá, próximo à BR-470, em torno de 70 pessoas estão morando em um ginásio de esportes e 150 fazem as refeições. Um surto de diarréia entre os desabrigados havia sido recentemente debelado pela Vigilância Sanitária e os técnicos faziam uma palestra sobre como cuidar da água.
Aos poucos vou contando mais e publicando algumas fotos.
domingo, 7 de dezembro de 2008
sábado, 6 de dezembro de 2008
A enchente e a publicidade oportunista
Um leitor do blog chama a atenção pro podcast que acompanha esta matéria da Folha de S. Paulo ("Homem que perdeu tudo ajuda a resgatar vítimas da enchente em Santa Catarina"). A primeira coisa que a gente ouve é a dica sobre uma incorporadora de imóveis de onde o desempregado Elson Ferreira da Conceição, com a água até o pescoço e pensando nas crianças e nos idosos ameaçados pelas águas, pode encontrar uma nova casa. "Cirela. Basta um clique". Comenta o leitor: "Isso é que é jornalismo-cidadão! Põe sensibilidade nisso. ;-)"









