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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O porco por Flávio José Cardozo

Estávamos na fase de conclusão do doc quando recebi um simpático e-mail de mestre Flávio José Cardozo,  que honra as letras de Santa Catarina e do Brasil com seus contos, romances e crônicas. Ele disse estar curioso para ver o filme e enviou uma crônica publicada em setembro de 1991 no Diário Catarinense, reverenciando o porco. Aguardamos você lá, Flávio! Uma das cenas tem muito a ver com o seu texto.  

O porco
Flávio José Cardozo

Alcebíades Santos, repórter de jornal, manda de Chapecó competente matéria sobre as não sei quantas utilidades que tem o porco. Relata dele tanta serventia que o leitor ponderado se constrange de já ter olhado o porco sem respeito e, pior, ter usado seu bom nome para definir um ou outro mau sujeito. Até um pensamento triste e torto cheguei a ter, confesso humildemente: da ponta do rabinho à pontinha da orelha, tintim por tintim desse vivente é 100% aproveitado - de mim que percentagem se aproveita, vivo ou morto?

Alcebíades Santos, com senso didático, retalha para nós um porco bem no ponto e faz este balanço matemático: itens industrializados são cerca de oitenta, do tipo mortadelas e salsichas; produtos congelados são uns quinze, como pernil, lombo e filé, e uns dez produtos salgados como pés, orelhas, rabo, que fazem da feijoada o encanto que ela é. E como se isso tudo não fosse já legal extraem-se ainda do dadivoso porco bondades com os quais nunca sonhou nossa vã porcologia.

Dos miolos e do reto, vejam só que chique, resultam uns peregrinos manjares que, atravessando a barreira dos mares, vão deliciar Hong-Kong. Quanto ao útero da porca, eis o seguinte: não dá só porquinhos, dá também um prato de oriental requinte. E o tesouro científico que é o porco?De seu pâncreas tiram a insulina; da mucosa intestinal, a heparina; do duodeno não ficou dito que remédio mas dele sai remédio. E nas válvulas cardíacas, ó que porco cordial! Elas dão certinho no coração humano, não há nada que melhor  e por mais tempo funcione que as válvulas cardíacas do porco. Que tal, bípede mofino, saber o coração batendo aí no peito com um tique-taque suíno?

Do couro sem luxo de quem rolou na lama saem sapatos e roupas que dão gosto, e do pêlo sai pincel para ensaboar o rosto, e do casco sai cola, e dos ossos, fígado e pulmões saem rações que perpetuam o porco irmão no corpo de outros bichos.

Soubesse eu fazer orações boas, de contrição uma faria: perdão, porco, se usei mal o teu nome, perdoas?

(Diário Catarinense – 11.09.1991)
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Acompanhe o blog de lançamento do filme.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Histórias do Brasil Caipira

Em homenagem ao amigo Marques Casara, aniversariante do Dia da Criança, aí vai uma crônica dele de 2000. É o piloto de uma série que se chamaria Histórias do Brasil Caipira, a ser publicada na revista digital Guru de Viagem - projeto que terminou não saindo da prancheta, por conta do estouro da bolha da internet. Fica a esperança de que essas histórias ressurjam num blog do Casara ou em outro lugar qualquer. Com certeza ele tem muito o que contar.

p.s.: Esta crônica sai do fundo do baú pelas mãos do Rogério Mosimann, pai da ideia do Guru de Viagem e de outras tantas, meu companheiro de aventuras digitais e etílicas no Rio, no Chile e em Floripa.

Viagem sem fim
Coloquei na mochila duas calças, uns três shorts, camisas, um pacote de maços de cigarro, um canivete e fui pra rodoviária começar a viagem mais longa da minha vida. A idéia era sair de Chapecó, interior de Santa Catarina, passar por São Paulo, Mato Grosso, Rondônia, conhecer a Amazônia, ver o encontro das águas no Rio Negro, visitar Belém, tomar umas cervejas em Goiás e estar de volta em 30 dias. Contornar o Brasil, encontrar pessoas, pegar muita carona e gastar o mínimo possível. Nunca mais parei de viajar desde então, 13 anos atrás. Conheci tanta gente que as agendas se perderam pelo caminho. Sobraram recordações, amores, medos e algumas alegrias.
Viajar é percorrer a estrada da vida que risca o horizonte das incertezas. Pra onde vou? Sei lá... Outro dia eu estava sentado na beira de um rio no Vale do Curuçá, interiorzão da Amazônia. O barco que nos levava jazia emborcado no leito lamacento, abatido por um tronco que chegou sem anunciar-se. Eu esperava o resgate, carona que me levasse de volta pra casa. Pensava, olhando as lontras que reclamavam aos gritos da minha presença em seu mundo, que aquela viagem, iniciada há 13 anos, ainda não chegara ao fim. Nunca mais fui o mesmo depois que ajustei as cordas da mochila e dei adeus à namorada, que ficou com o coração na mão e a certeza de que eu nunca voltaria.
As estrelas de leite que iluminam a noite da floresta me tornaram contemplativo e questionador. Quando essas árvores forem devoradas pelos monstros de lata, derem lugar aos arranha-céus do apocalipse, o mundo vai virar de ponta cabeça e a dor do índio será soterrada pelo entulho concreto dos edifícios de areia. Triste sina de nosso povo, que cresceu em tecnologia mas não aprende a respeitar diferenças étnicas e culturais.
O dia clareava sobre a rodoviária quando embarcamos, eu e meu amigo, para essa viagem de um mês que ainda não acabou. O ronco do Scânia de 38 lugares ainda ressoa em algum ponto perdido da memória. Fica mais forte na medida em que puxo pela recordação, recomeço essa viagem pelo Brasil.Se quiser, venha comigo nessa boléia. Troque idéias sobre os temas que vamos encontrar pelo caminho. Uma viagem sem cinto de segurança, repleta de muita aventura e histórias curiosas. Vamos nessa! (05.12.2000)

Marques Casara é jornalista e diretor de documentários. Acha que o Brasil é bem maior do que a gente pensa e por isso, sempre que pode, sai em busca de boas histórias para compartilhar com seus conterrâneos. Trabalhou para grandes revistas e emissoras de televisão. Atualmente, atua na área de projetos da Editora Abril.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Enquanto o twitter não volta

Twitter "baleiou" feio hoje. É a maior instabilidade no sistema em vários meses, lembra o Mashable (citado pelo Alexandre Gonçalves no Facebook, que tá sendo usado como sucedâneo). O Facebook tá com falhas esporádicas também. Não sou de teorias da conspiração, mas a primeira coisa que pensei foi num ataque organizado pra lembrar os 64 anos de Hiroshima. Enquanto isso, aí vão três prototuitadas.

Hoje 17h na Academia Catarinense de Letras, oficina de crônicas abre com Flávio José Cardozo.
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Dia 20 a Regininha Carvalho fala sobre humor na crônica.
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Já sou avô. Meu filho Bruno, de três anos, é pai do coelhinho Fufim e do cachorrinho Cleite.

domingo, 2 de agosto de 2009

Rua Major Codeceira


Rua Major Codeceira, originally uploaded by dveras.

Aos dois anos na nossa casa no bairro da Boa Vista, em Recife. Minhas primeiras lembranças são dessa época. Tem uma história engraçada envolvendo essa casa e o nome da rua. Na real, não lembro de ter acontecido, mas foi tão contada e recontada - sempre com muitas risadas - que passou a fazer parte da crônica familiar. Uma vez um ladrão entrou lá e tentou roubar um botijão de gás (!). Minha mãe o encontrou quando ele ia saindo com o trambolho nas costas. Ele disse algo como "o doutor mandou buscar", aí ela chamou: "Filho, vem cá". O homem esperava um garotinho, mas surgiu meu pai, na época com um físico bem atlético. Ele foi-se esquivando, papai o segurou pela camisa e ele deu um pulo pra trás, rasgando-a. Aí papai o segurou pelo cós das calças. Outro pulo pra trás, calças rasgadas, o ladrão ficou pelado. E deu um salto enorme de gato sobre o muro alto - esse que aparece na foto -, caindo na casa vizinha.

Nesse meio tempo alguém já tinha ligado pra polícia e deu o endereço da rua: "Major Codeceira, venham logo!". Os policiais entenderam que a casa de um major estava sendo roubada, e cercaram o quarteirão. Enquanto isso o ladrão, nuzinho, ia pulando cercas e muros de quintais arborizados com aquelas mangueiras e jaqueiras frondosas que enfeitam o Recife. Num varal, pegou um saiote e vestiu. Mas terminou sendo preso daquele jeito e virou motivo de chacota pra rua inteira. No fim das contas, meu pai disse que não queria prestar queixa e liberaram o elemento. O homem acabou esquecendo um par de chinelas havaianas no nosso quintal. Quando comparo essa historinha ingênua com as barbaridades que a gente vê na crônica policial de hoje, quanta diferença...

terça-feira, 9 de junho de 2009

Anotação de leitura: LLL e a notícia do acidente

De Alex Castro, um dos grandes textos da internet brasileira.

Vida Que Segue

Liberal, Libertário, Libertino

Ontem de manhã, extraordinariamente, comprei o jornal. Estou procurando um apartamento pra alugar e queria ver os classificados. Em outro caderno, petrificados em fotos e condensados em resumos biográficos, estavam os mortos do acidente aéreo: o casal de noivos de Niterói, o maestro e o príncipe, a família que viajava separada justamente para que todos não morressem juntos, a mãe que perdeu a chance de ver a filha pela última vez pois ficou presa no trânsito. Li tudo aquilo com a curiosidade mórbida que caracteriza os humanos, me emocionei, considerei minha própria mortalidade, etc etc, e deixei o jornal respeitosamente à beira da cama, talvez para ler de novo. Mais tarde, houve sexo, com sua costumeira desordem viscosa. Já de madrugada, antes de dormir, fui arrumar o quarto. Em cima do jornal, tinha caído uma camisinha usada: gotas esparsas de porra e de KY manchavam o rosto do dinâmico chefe de gabinite de um jovem prefeito. Dobrei o jornal em volta da camisinha, joguei tudo fora e fui dormir.

sábado, 18 de abril de 2009

Dois jingles do tempo da República Velha

Florianópolis, cidade linda, de nome tão feio, como quem mora aqui já sabe (ou devia), foi batizada assim em 1894 como homenagem de um deputado puxa-saco ao presidente Floriano Peixoto - então ainda bem vivo -, depois que ele mandou abafar a Revolução Federalista ao custo de quase 200 fuzilamentos na Fortaleza de Anhatomirim. Li hoje uma historinha jocosa também ligada ao nome do marechal. A fonte é a biografia Rubem Braga: um cigano fazendeiro do ar, de Marco Antonio de Carvalho. Braga a ouviu na infância, de um parente mais velho, e anos depois contou ao sobrinho Edson, que a revelou ao biógrafo:

Na campanha presidencial que colocou Floriano contra Custódio de Melo, em 1890, os partidários de Melo cantavam, nas ruas: "Floriano, Floriano, que nome horrendo/ começa cheirando, acaba fedendo". Mas seus adversários respondiam no mesmo tom: "Custódio, Custódio, que nome tens tu! / Acaba com ódio, começa com cu!"

quinta-feira, 19 de março de 2009

Crônicas da Regina

Há poucos meses ela se despediu da blogolândia pra se dedicar a escrever em voos de mais fôlego. Mas deve ter conseguido um bom arranjo no seu tempo, porque voltou! Agora em novo endereço, Regininha Carvalho compartilha com os amigos e admiradores suas crônicas saborosas sobre livros, causos, pão, artes domésticas, caminhadas, nuvens outonais e muito mais. Que bom!

quarta-feira, 11 de março de 2009

Mais um cronista de segunda

O título deste post é uma brincadeirinha com meu amigo e ex-colega de faculdade Norberto Well, que a partir deste mês publica às segundas-feiras suas crônicas no caderno Anexo de A Notícia. A crônica, esse gênero literário falsamente "menor" - como estão aí pra comprovar as obras-primas de Rubem Braga e Fernando Sabino -, requer capacidade de observação arguta das miudezas do cotidiano, naquilo que elas têm de humor e poesia. Sem falar no indispensável domínio do idioma e de certos recursos narrativos. Norberto acumula esses predicados e é um grande contador de histórias. Quem puder acompanhá-lo vai comprovar. Dois aperitivos:

Esse é do tempo do trema (sobre a reforma ortográfica e as armadilhas da língua)

Flores do perdão (uma aventura urbana para satisfazer a mulher amada)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Recordações de Quarta-Feira de Cinzas

Já fui bastante ligado em Carnaval. Não em clubes ou em de escolas de samba, e sim na festa de rua. Tenho belas lembranças dos blocos de sujos de Recife e Olinda da minha infância. Meus pais eram carnavalescos ativos e aqueles dias eram de uma deliciosa alegria ingênua. Primeiro, o "esquenta" em casa, com amigos e agregados. Depois saíamos atrás da muvuca nos bairros e no centro histórico. À noite os adultos deixavam as crianças em casa e iam pros bailes a fantasia, então dessa parte não tenho o que contar. Uma brincadeira comum naquele tempo era jogar água nos motoristas que passavam, usando uma espécie de "seringa" feita com um cano de PVC, um cabo de vassoura como êmbolo e um pedaço de borracha (depois foi proibida porque começaram a usar água de sarjeta e mijo, o que às vezes resultava em facadas e tiros, mas isso foi bem depois). O ritmo das bandas de frevo percorrendo a pé as ladeiras de Olinda reverberava em cada célula do corpo. As fantasias impressionavam pela criatividade. Lembro que o número de brigas era mínimo, considerando a quantidade de gente circulando.

Depois, na adolescência, descobri outros carnavais e já preferia me divertir com os amigos. Em fevereiro de 1982, aos 16 anos, fui acampar com meu irmão André e os amigos Marcello, João Augusto e Atamir em Barra de Maxaranguape, uma vila de pescadores no litoral potiguar, a uma hora de Natal. O lugar tradicionalmente pacato virava uma ferveção, tinha até trio elétrico. Andávamos descalços nas ruas de areia branca da vila, tomávamos banho de mar e misturávamos bebidas, pulando de festa em festa, dia e noite. Pra dormir, nos dividíamos: uns numa barraca no acampamento que montamos na praia, outros dentro duma Variant velha e quem sobrasse deitava numa rede no chão fofo ou ia dançar mais um pouco. Ali pertinho, a foz de um rio ladeado de coqueiros. Todos éramos lisos e desajeitados nas artes da paquera, mas tínhamos fígados novinhos e tamanha fome de viver que aquela folia entrou pra nossa história. Rolou até um diário coletivo em que íamos registrando as loucuras e piadas. Até hoje sou amigo desses caras. A gente raramente se vê, mas quando se encontra, é quase como se aquele carnaval tivesse sido ontem.

Depois disso houve vários carnavais, nenhum tão lindo, mas tiveram seu valor (destaques pra Olinda, Floripa e Laguna, em que a alegria caótica das ruas me ajudou a lidar melhor com pequenas e grandes tristezas). Aí o tempo foi passando, vieram os filhos, a preguiça aumentou exponencialmente. O fato de viver no Sul, há mais de duas décadas longe das minhas raízes carnavalescas nordestinas, talvez tenha contribuído pra esse afastamento gradativo. Agora deixo a folia passar ao largo e aproveito pra descansar, pegar praia, botar as leituras em dia. Com uma pontinha de saudosismo pelos meus velhos carnavais, mas sem a ranzinice de achar que "antigamente era melhor". Como diz mestre Paulinho da Viola, meu tempo é hoje. Sem esquecer que o tempo passado "foi um rio que passou em minha vida/e meu coração se deixou levar".

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Pílulas brasilienses

Na entrada do hotel onde tou hospedado tem uma Rural que pertenceu a JK. Conservadíssima, linda. Tenho vagas lembranças de infância de uma Rural na família, do pai ou de um tio.
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Hoje vi um cachorro preto passear de lancha e depois de jet-ski no lago Paranoá.
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Pitomba, nosso taxista cearense, contou que tem sucuri no lago. Gugleei "sucuri + paranoá" e encontrei uma matéria legal do Correio Braziliense, de 2003, sobre o que essas águas escondem.
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Semana passada o Botelho, catarinense radicado em Brasília, me contou uma história engraçada que presenciou em Salvador. Ontem ele botou no blog: Emplacamento baiano.
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Comida goiana é boa demais. Tem muita semelhança com a mineira. Mas não me arrisco no pequi, aquela armadilha espinhenta com jeitinho inocente.
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Lendo: Em águas profundas: criatividade e meditação, de David Lynch, o diretor de Veludo Azul e Mullholand Drive - Cidade dos Sonhos, dois dos filmes mais oníricos que já vi.
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O tuiteiro @tiagomx dá a dica: http://twtip.com, saite com dicas sobre Google, Photoshop, writing, life etc. In English.
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O designer João Zanatta dá esta outra: The 100 Most Popular Photoshop Tutorials 2008. Saiba como transformar uma mocréia numa sereia.
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Ei, Ana Paula, conheci uma cerveja nova hoje: Teresópolis, uma lager que vem numa garrafa gordinha. Boa. (curti o som da Amy Winehouse que você blogou; e fui atrás de outros).
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Contando as horas pra voltar pra Floripa.
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(pensando alto, depois de dois adiamentos: trilha da Lagoinha do Leste no carnaval?)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

O mapa das mulheres bonitas de Floripa

Vi agora no blog do Alexandre Gonçalves um vídeo bem-humorado da MTV, o Reggae de Jurerê Internacional, sobre esse "universo paralelo" de Florianópolis que ganhou destaque em matéria do New York Times, pra alegria de muitos nativos deslumbrados. Sobre isso, tem também uma crônica muito boa de Felipe Lenhart no Diário Catarinense. A teoria dele é a seguinte:

... As mulheres realmente bonitas desta cidade tão incensada por causa da beleza feminina estão concentradas é no Centro, enfiadas em lojas, escritórios, repartições e consultórios, cercadas por muito concreto e muita argamassa, e é provável que a sua figura cheia de atributos esteja sendo tratada agora mesmo com lufadas agradáveis de ar refrigerado. ...

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

De enxurrada, guerra, jornalismo e odores

No domingo concluí uma reportagem pro Valor Econômico sobre a pós-tragédia no Vale do Itajaí. Eu já tinha enviado o texto pro jornal e precisei atualizar o número de mortos - agora são 128, acharam o corpo de um homem em Ilhota. As cenas e o cheiro de destruição no Morro do Baú continuam voltando à memória sem pedir licença. Efeito colateral da atividade do repórter que vai a campo: o envolvimento emocional é inevitável porque a gente cria vínculos, mesmo que superficiais. De perto, o olhar e a respiração das pessoas deixam marcas.

A enxurrada em Santa Catarina tem sido comparada com freqüência a uma guerra. Minhas referências bélicas são só de livros, reportagens (lidas/vistas), filmes e relatos de colegas, mas imagino que não seja de todo descabido o paralelo. No estado de suspensão momentânea ou duradoura da vida normal, as pessoas passam a depender muito mais dos instintos. Surgem os atos de bravura e os abjetos casos de ruindade. Tudo demasiadamente humano, sem verniz. No meio disso tudo, os repórteres colocam sua subjetividade a serviço do desafio narrativo. De certa forma pode ser excitante, mas qualquer glamour que se enxergue nesse tipo de trabalho é pura ilusão.

Amigos repórteres que cobriram conflitos armados (Marcelo Spina, Fernando Evangelista) comentaram comigo sobre como é difícil conciliar a emoção com a obrigação de apurar e contar. Os profissionais reagem de diferentes maneiras às situações-limite. Existem os que se abrigam na proteção do humor ou do cinismo. Outros se fecham. Alguns se tornam viciados em perigo e desenvolvem a sensação de ter o corpo fechado, como contou uma vez o José Arbex, que nos 80 era correspondente da Folha de São Paulo na União Soviética e cobriu a guerra do Afeganistão.

Medo: quem tem, tem. Quem não tem, é porque falta um parafuso. Marques Casara me contou que sentiu o cheiro fedido do medo no próprio suor enquanto entrevistava, usando um microfone escondido, um chefe de esquadrão da morte no sertão nordestino. No Afeganistão, Yan Boechat se empolgou ao ver um tanque russo abandonado na margem da estrada. Foi até lá e percebeu, pelos gritos dos nativos, que tinha caminhado por um campo minado. Voltou pisando nos próprios passos e sabe-se lá que cheiro sentiu. Em Ramallah, na Palestina, Fernando Evangelista viu uma senhora ser abatida por um franco-atirador a poucos metros dele, e nada pôde fazer pra ajudá-la. Na Somália, a câmera filmadora de Marcelo Spina foi atingida na lente por um tiro de fuzil. Depois, a janela de seu quarto no hotel foi metralhada e ele, em choque, decidiu sair do país.

Jornalista, bombeiro, policial ou médico na emergência de hospital público, o profissional que lida com situações de tensão e risco precisa ter estabilidade emocional pra realizar o trabalho - e estômago pra suportar cheiros bem desagradáveis -, senão termina atrapalhando mais que ajudando. Cada um emprega os artifícios mentais de sua preferência pra manter a sanidade e seguir em frente. A correta avaliação do tamanho do próprio ego é uma garantia a mais de avançar sem muitos arranhões - embora, na vida, qualquer garantia deva ser vista com ceticismo. Coloco tudo na balança e acho que encarar o tédio dos trabalhos sem sentido é um desafio bem mais penoso.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Carta ao governador

Esta crônica de Felipe Lenhart, publicada ontem no Diário Catarinense, reflete a decepção de muita gente com a falta de estatura do governador do estado diante da tragédia humanitária ainda em curso. Passo adiante.

Senhor governador,

Vou me apresentar: sou um turista endinheirado que mora longe da Santa e Bela Catarina. Mas visito o Estado todos os anos. Passo uma semana em Balneário Camboriú, percorro o roteiro de compras de Blumenau e Brusque, vou sempre a uma praia belíssima em Itajaí, durmo na casa de um parente distante em Bombinhas e invisto (este é o termo certo) o resto de minhas férias gastando nas boates da moda, nos restaurantes caros, nas lojas de grife e nos hotéis luxuosos de Florianópolis. Já estava tudo certo para a minha viagem de fim de ano: passagens compradas, reservas confirmadas, o convite para a festa de Réveillon aceito. Mas aí veio o cataclismo e tudo que aconteceu semana passada. E é com tristeza que lhe confesso, senhor governador: eu não irei mais a Santa Catarina esse ano, nem nos primeiros meses de 2009. Acredite: me custa muito tomar esta decisão.

Ora, o senhor deve ter lido a edição de ontem do Diário Catarinense. Eu li, e li tudo, na internet. Descobri que, neste momento, soldados, bombeiros e voluntários estão nas ruas de Santa Catarina, empunhando pás e picaretas, manejando escadas e maquinário, guiando tratores e caminhões, lutando contra a terra, o lodo e os destroços para desenterrar cadáveres, localizar desaparecidos, salvar o que restou daquele fim de semana tempestuoso. Milhares assistiram ao lar ser destruído e estão desabrigados; outros milhares abandonaram suas residências e estão desalojados. A maioria não tem o que comer e vestir. Alguns perderam familiares e amigos. Quantos mais estão sepultados sob as ruínas? Vou lhe confessar: chorei com os relatos espantosos, emocionados, desesperados. A sua gente está triste, senhor governador, abalada, pobre e enlutada.

É também por isso que lhe escrevo. Para pedir que me esqueça por um ano, senhor governador. Minha visita só atrapalharia. Verão e Réveillon tem todo ano, mas o que aconteceu em Santa Catarina não deveria sequer ter acontecido, e certamente não poderá se repetir. Portanto, senhor governador, não arrume Santa Catarina para me receber para as festas. Em vez de arrumar, conserte, resolva, dê jeito definitivo no seu Estado, para o seu povo abatido que tanto merece. Você tem muito a fazer pelos seus. Desejo-lhe fibra e sorte.

Com o forte abraço e as condolências do seu cliente mais importante.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Espiral de calamidades (crônica de Felipe Lenhart)

Estou em SP a trabalho por dois dias, mas continuo acompanhando de perto os acontecimentos de Santa Catarina. Republico na íntegra esta crônica de emergência de Felipe Lenhart, que captou bem o espírito do momento.

Espiral de calamidades

Sujos, sufocados e famintos, fogem os bichos de dentro das tocas, de cima dos ninhos, do meio do mato. Há muito a terra treme, desliza e se desmancha sob o seu peso. Há muito caem galhos e despencam árvores sobre a sua cabeça. A caça sumiu, a comida já não existe e o risco de virar presa assusta e enxota os bichos para fora das tocas alagadas, dos ninhos desfeitos, para longe do mato revirado e inabitável. Então eles vêm dar na rua. Rastejam pelo gramado dos quintais, escalam cercas e calçadas, pulam muros com a agilidade que a fome ainda não consumiu. Correm desembestados pelas valas, pelos córregos, pelas trilhas e picadas que levam às casas e aos edifícios, às lojas e mercearias, aos supermercados e abrigos. Está quase tudo submerso – servidões, ruas, avenidas, cruzamentos, garagens, porões –, mas para os bichos sem-teto estes lugares são pousos distantes o bastante do pesadelo do lar submetido à força hostil da enxurrada. Eles reviram a imundície das sarjetas, os dejetos nos terrenos baldios, as latas e os sacos de lixo espalhados em desordem. Penduram-se em árvores que resistiram, cavam novas tocas no terreno seco e firme que porventura descobrem em meio ao concreto encharcado da cidade. Urinam, defecam, canibalizam-se entre si, espalhando sangue, suor e excrementos na água suja de areia que viaja às correntezas por cada bueiro, por cada ruela. E é quando essa torrente podre atinge a altura do teto, depois de ter engolido as flores do jardim, o tapete da sala, os sofás, o carro na garagem, as camas e os armários, queimado eletrodomésticos, é nesse momento que, sujos, sufocados e famintos, saem os homens de dentro das tocas, de cima dos ninhos: para fora de suas casas. Não há comida há dias, nem energia elétrica para aquecer ou ligar o que for, botar em funcionamento a parafernália eletrônica que, por vezes, nos parece inútil. As encostas dos fundos do terreno já desbarrancaram, e o barro, o lodo, a massa compacta avança a cada hora, derrubando muros, forcejando portas e janelas. A chuva não dá trégua - há semanas varia da garoa ao temporal. As gosteiras se reproduzem, reproduzem-se os choros, os suspiros, o desespero. À mínima estiagem, o pai sai à rua com água quase pelo peito e se junta a outros pais. Sem o auxílio de bombeiros e de soldados, que não conseguem alcançar a rua isolada, esses homens pegarão em pás, empurrarão barreiras, erguerão caixas d'água, farão o diabo para que a enchente não mate a todos. Na outra ponta da família, as mães já não toleram a fome dos filhos. Com o olhar vidrado e carregando uma sombrinha, elas saem às ruas ao cair da noite. Investigam, pedem, negociam, por fim suplicam a quem encontram: uma caixa de leite, um saco de açúcar, um quilo de arroz. E se você, por acaso, sorte, sentido de prevenção ou classe social, não está enrodilhado nesta espiral de calamidades, vai ficar bastante impressionado quando for abordado por umas dessas mães. Porque, como os bichos, elas estarão caçando.

Crédito: DC Online

COMO AJUDAR DESABRIGADOS E DESALOJADOS EM SC?

Para doar dinheiro:

Defesa Civil
Banco do Brasil - Agência 3582-3, Conta Corrente 80.000-7.
Besc – Agência 068-0, Conta Corrente 80.000-0.
(O depósito deve ser creditado ao Fundo Estadual de Defesa Civil-Doações.)

FIESC
Banco do Brasil - Agência 3425-8, Conta Corrente 21.000-5, CNPJ: 83.873.877/0001-14.

Para doar alimentos, remédios, roupas, colchões e água potável:

Consulte lista de locais de doação separados por cidade no hotsite especial SOS SC do clicRBS, aqui.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

A mulher e seu passado

(...)
"Benditos teu pai e tua mãe; benditos os que te amaram e os que te maltrataram; bendito o artista que te adorou e te possuiu, e o pintor que te pintou nua, e o bêbedo de rua que te assustou, e o mendigo que disse uma palavra obscena; bendita a amiga que te salvou e bendita a amiga que te traiu; e o amigo de teu pai que te fitava com concupiscência quando ainda eras menina; e a corrente do mar que te ia arrastando; e o cão que uivava a noite inteira e não te deixou dormir; e o pássaro que amanheceu cantando em tua janela; e a insensata atriz inglesa que de repente te beijou na boca; e o desconhecido que passou em um trem e te acenou adeus; e teu medo e teu remorso e a primeira vez que traíste alguém; e a volúpia com que o fizeste; e a firme determinação, e o cinismo tranquilo, e o tédio; e a mulher anônima que te vociferou insultos pelo telefone; e a conquista de ti por ti mesma, para ti mesma; e os intrigantes do bairro que tentaram te envolver em suas teias escuras; e a porta que se abriu de repente sobre o mar; e a velhinha de preto que ao te ver passar disse: 'moça linda...'; bendita a chuva que tombou de súbito em teu caminho, e bendito o raio que fez saltar teu cavalo, e o mormaço que te fez inquieta e aborrecida, e a lua que te surpreendeu nos braços de um homem escuro entre as grandes árvores azuis. Bendito seja todo o teu passado, porque ele te fez como tu és e te trouxe até mim. Bendita sejas tu."
Rubem Braga
A mulher e seu passado, no lindo livro Duzentas Crônicas Escolhidas, que terminei de ler hoje.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Trezentas árvores

Eu caminhava pelo quintal com Miguel. Comentei que lá nos fundos nós vamos, um dia, construir uma edícula pra instalar um pequeno escritório e uma área de serviço. Pra isso, íamos ter que sacrificar duas ou três árvores do nosso bosquezinho. Ele olhou pra elas e começou a chorar.

Por um instante me senti um ser abominável. A vontade que me deu foi dar um abraço apertado nele e dizer "é mesmo, filho, quem precisa de escritório e de área de serviço?" Mas segui com minha lógica de adulto utilitarista.

Expliquei que às vezes é preciso derrubar árvores pra usar a madeira ou construir. E que podíamos compensar replantando. Ali mesmo já tínhamos plantado várias, como o nim e o pé de araçá. Mas ele não se convenceu. Aí eu disse que, pra cada árvore derrubada, vamos plantar dez.

- Dez não. Cem!

- Tá bom. Cem.

Ele enxugou as lágrimas e continuamos o passeio. A conversa reforçou meu sentimento de que há esperança pra humanidade. Quem virá depois será muito melhor que nós. Então deixo registrado aqui o meu compromisso com o planeta e com meu fiote: plantar no mínimo trezentas árvores.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Aniversários da família: felinos

A Marli Henicka me lembra que hoje é aniversário da sua gatinha tricolor Lili Marlene. Três de setembro foi a data de nascimento estimada pela veterinária quando demos a bichana de presente pra ela e pro Acácio. Isso quer dizer que o Branquito, nosso gato p&b, também aniversaria. Eles são irmãos e apareceram juntos lá em casa há cinco anos. Branquito, apesar de castrado, continua rueiro e comemorou na farra. Está com a cara inchada e foi ao veterinário hoje. O doutor Gustavo disse que deve ter sido uma unhada de gato. Vai ter que entrar no analgésico e no antibiótico. Nada grave pra quem já fincou um anzol de atum na barriga (na época tive que sair às 10 da noite, no meio de um jogo do Brasil, atrás de um veterinário de plantão).

Como apreciador de gatos desde criança, há tempos sei que é balela essa história de os bichanos serem traiçoeiros, frios e desapegados. Tudo depende da maneira como forem criados. Se receberem carinho nos primeiros meses de vida - e depois também -, vão se tornar ronronantes criaturas amorosas. Se receberem pancadas ou nunca tiverem contato físico com gente, se transformam em feras - bem como os humanos, aliás. É curioso como cada animal tem personalidade distinta (a Giorgia, que cria três, e a Aline e o Gustavo são escolados nisso). O Branquito, por exemplo, adora me acordar às cinco da manhã pra que eu abra a porta pra ele sair. É meu despertador felpudo. Também é super apegado nas crianças, até sai pra passear com elas pela rua. E gosta de brincar (às vezes) com a nossa cachorra Tutu.

Ainda não comprei presente, acho que vou dar uma daquelas rações pastosas e caras que raramento compro. Mas o presente que ele mais aprecia é grátis e chega batendo as asas neste princípio de primavera que já se anuncia: os passarinhos. Todo ano, na época em que os penosinhos se reproduzem, ele abocanha vários desavisados enquanto ciscam no quintal. Às vezes conseguimos salvar alguns da boca dele, mas nem sempre. É a vida.

domingo, 10 de agosto de 2008

Anotação de leitura: chuva

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Gosto da chuva e dos vidros embaçados onde os piegas escrevem seus recados eternos que duram até o fim do calor. Calor que se mistura com água e é suor. A chuva que atrasa um compromisso e por isso há um café que pode ser degustado com mais delicadeza em cima da mesa, enquanto ela diminui o ritmo lá fora.
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A cidade quando chove. Crônica de Rodrigo Levino em Dias Estranhos. A sensação que perpassa o texto tem tudo a ver com minha própria relação com a chuva. E com este fim de semana de inverno.

Um cronista de segunda

A partir de amanhã, Felipe Lenhart brinda os leitores do Diário Catarinense com suas "crônicas de segunda". Ironia hilária, o cara é um fera nas letrinhas.

sábado, 9 de agosto de 2008

Dias estranhos

Leio Dias Estranhos (DigiZap, coleção Jovens Escribas, 2007), livro de crônicas do jornalista e escritor Rodrigo Levino. Presente do amigo Solino, que me deu a honra de um bom papo regado a cerveja de trigo quando estive em Natal em julho. Levino tem 25 anos, nasceu em Patu, RN, e escreve pra revista Piauí. Minha identificação com o cronista foi imediata. Ele aborda o mundo das miudezas significativas - as lembranças fragmentadas de infância quando mergulha no mar, as observações sobre o "tetris humano" no ônibus em Natal (também fiz tantas, percorrendo as mesmas avenidas), combinações inusitadas de vinho, macarrão e Led Zeppelin, o modo cauteloso de cortar legumes, o aconchego de uma pequena loja de discos diante da iminência de chuva forte. Sinto que, se nos encontrássemos, poderíamos passar horas falando sobre "o prazer de subverter a lógica do mundo das utilidades", como ele coloca na crônica Deletérios. Ouro puro. Bom de ler em dias frios e chuvosos de inverno como hoje.